quarta-feira, 25 de junho de 2008

Viva, san Iker Casillas!

Em letras gordas como um grito. VIVA, SAN IKER CASILLAS! Justiça feita, ao som de martelo, a todos os mártires da baliza. A Buffon, que perdeu, mas também aos outros, aos que fazem vida de desmancha-prazeres, negando noite após noite o que tantos desejam: o golo.

A Barbosa também, crucificado pelo erro que fez escola todos os anos que vieram depois. O primeiro poste é teu. Esmagavam-me o ombro que nem tenazes as mãos dos mais velhos, senhores daquela verdade dogmática, que sublinhava que a bola - mesmo que o mundo ficasse virado do avesso - não podia entrar por ali. Nem que fosse Ghiggia ou qualquer uruguaio regressado do inferno. Nem que viessem milhares de fantasmas dos que viveram esse dia de Maracanazo como nenhum outro, de dedos lascados de tanto morder e punhados de cabelos arrancados nas mãos.

Um guarda-redes cerra os dentes e sai, de olhos nos olhos, numa luta desigual. Touro enraivecido perante o cavaleiro, dono do tempo, do espaço, senhorial, armado com bandarilhas aguçadas. Ouve o pasodoble que dá ritmo às holas nas bancadas e soa-lhe a marcha fúnebre, mas não consegue fintar o destino. Enrijece os músculos de fuzileiro e parte para o choque frontal. Tantas vezes comeu o pó da arena e sentiu os ossos a ranger, as costas a dobrar, é o seu tempo a chegar.

Revive Iashin, Zoff, Fillol, Pfaff, Desaev, Bats e Schumacher num flashback, naquela corrida de fim mais-que-anunciado. Bola no ar, tem de ser dele. Um cruzamento só pode ser dele. Um remate de longe, não há outra hipótese, de quem mais poderia ser? Não pode falhar. Um dedo partido não é nada, uma costela desencaixada é um ferimento de guerra que exibe orgulhosamente. O corpo foi transformado numa sala de troféus, cada um arrumado num pedaço de carne que vai perdendo firmeza.

Aquela bola vem traiçoeira. Agarra, agarra, não podes falhar agora. Em nenhum outro profissional, o erro ocupa tanto espaço como num currículo de guarda-redes. É preciso ser-se um dos melhores do mundo para escapar à crítica: Kahn em 2002 e Cech em 2008, por exemplo. Um frango pode valer pontos, um remate ao lado de um companheiro é sempre azar, haverá mais oportunidades. De nada vale ser louco, fazer do corpo uma parede de nódoas negras, colocar as mãos onde os outros pisam, porque um frango tem o peso de dez defesas à Gordon Banks sobre a linha, após outros tantos cabeceamentos de Pelé.

O guardião-marine regressa à baliza. Mais do que qualquer outro em campo, foi ele o humilhado. Caminha demoradamente, dizendo que «não», entre milhares de palavrões, enquanto meia multidão aplaude o inimigo e a outra metade o assobia a ele. O goleador dá a volta à arena depois de mais um golo, festeja com os das suas cores, é invejado pelos das outras. O guarda-redes é o inimigo da festa, merece quase tantas vaias como o árbitro, o único que é mais detestado do que ele.

Paradón de Casillas. Esta é para ti, Barbosa. O melhor de 50, crucificado em pleno relvado por anos a fio. Para ti e para todos os outros. Para ti, Higuita! Raios partam o velho do Milla! Para ti, Bats. Para ti, Schmeichel. Letras gordas, se faz favor. Foguetes e festa. Uma garrafa de champanhe no quarto de hotel. Melhor, a letras garrafais: SAN CASILLAS parece-me muito bem.

(by Luís Mateus)

terça-feira, 10 de junho de 2008

Português sim, mas cidadão do mundo

Habituei-me a detestar o cinismo da Itália, a apreciar o prá-frentex holandês e a misturar sentimentos por culpa da Alemanha. Normalmente, a Mannschaft diz-me pouco. Algumas vezes qualquer coisa. A Espanha nem isso, porque só um mártir conseguiria vestir de vermelho, azul e amarelo num campeonato com «C» grande. Apesar de Torres, Fabregas, Villa e dos outros... A França mereceu-me vénias de respeito por culpa de uma geração, mas o fantasma de Zizou deixou de assustar-me. E que me desculpem os inventores ingleses, mas o que se joga no continente já não é bem o association, por muito boa liga que seja a Premier.

Há ainda os vikings, dinamarqueses e suecos, que nem com um Alfred Nobel na história, conseguiram criar 10 Laudrups. Cinco Brians e cinco Michaels, e ficava o Schmeichel ad eternum na baliza... Só um acidente natural como o de 92 poderia dar num campeão de barriga de cerveja a saltar fora dos calções, apanhado a meio caminho da praia, disposto a prolongar as férias, por gozo, pelos tapetes. Antes e depois, faltou sempre qualquer coisa. Sempre me irritaram também equipas de pH neutro como a Suíça, a Áustria, a Turquia, a Grécia e outras afins.

Confesso, heresia, que já fui um pouco alemão em 1990 contra a Argentina de Maradona, da mesma forma que, quatro anos antes, saí de casa de braços abertos, feito parvo, a reclamar uma costela do «Dez», depois do «Golo do Século». Em 1988, holandês. Ainda mais laranja depois daquele remate de visão grande-angular de Van Basten, capaz de fazer mudar de cores o mais fanático dos adeptos. Ou acordar um morto, se gostarmos de humor negro. Em Itália, essa equipa comandada por Matthäus, com Brehme, Klinsmann, Hassler e Littbarski, tornou-me um pouco boche também.

O meu futebol foi construído por muitos nomes holandeses. Cruijff, Krol e Resenbrink, ainda em memórias a preto e branco, num futebol descontinuado de resumos, Rijkaard, Gullit, Van Basten, Kluivert, Overmars, Frank de Boer e Bergkamp em laranja berrante, sequencial, impressionista, como num quadro de Van Gogh. Talvez por isso, e apesar de Van der Vaart, Sneijder e Van Nistelrooij me quererem convencer do contrário, não consigo olhar para esta Holanda, quase sem figuras, da mesma forma. Até porque o Mundial-2006 deixa-me de pé atrás.

Nem aquela erupção de Tardelli, há 26 anos, fez com que mudasse de rumo. Um italiano de lágrima ao canto do olho era sempre motivo de festa, porque fomos educados a ficar sempre do lado dos bons contra os maus, os cínicos, aqueles que atraem para apunhalar pelas costas. Mas Andrea Pirlo mostrou-me que há mais do que essa dualidade, essa linha gravada na relva, que separa os vilões dos que os tentam parar, em nome da humanidade. Aquele futebol inteligente, de somas de parcelas pequenas, não pode nunca fazer do cérebro dos azzurri um fora-da-lei.

O hino vai começar a tocar daqui a umas horas, as últimas bandeiras vão ser colocadas nas varandas, vão bater mãos no peito, arrancar-se cabelos, e espero que por cá se festejem golos e vitórias. Felizmente, o talento continua a nascer em Portugal a bom ritmo, apesar da pobreza do campeonato, chegando para um dos melhores planteis da Europa. Vou ser português de 90 em 90 minutos, mas nos intervalos, por culpa dos outros «mágicos» na Áustria e na Suíça, serei, como Sócrates, «nem ateniense nem grego». Apenas um cidadão do mundo.

(by Luís Mateus)

terça-feira, 3 de junho de 2008

O futebolista-funcionário e a revolução Webster

É mais um envelope armadilhado, Master Webster. Onde quer que o ponha? O cartoon, lido com british accent [brit-ish āk sěnt], poderia mostrar depois o velho carrancudo a levantar a barba do kilt com um surdo e esganiçado whaaat?!, depois de erguer a mão direita em forma de funil de gramofone. As paredes exteriores pintadas a graffiti, os vidros esburacados à pedrada, as cortinas fechadas, não deixando adivinhar a hora solar, o som da televisão baixinho para não incomodar nem as almas penadas. Whaaat?!

De saída do estádio vizinho, moderno ou pós-moderno, com cadeiras aquecidas, tecto de abrir e redoma à volta do relvado, os jogadores arrastam grilhetas, presas ao melhor pé, ao mesmo tempo que assinam autógrafos e tiram fotografias de milhões de pixéis ao lado de civis. Depois de cinquenta jogos nas pernas, e com o passe de letra em gangrena, rasgam o sorriso e aceitam convites em série para spots de Freestyle, anúncios de refrigerantes e botas demolidoras. Mas, antes de abrirem a porta dos Fórmula 1, têm de se separar dos fios de cordel, que os prendem desde o topo, num cenário Von Trier marcado a giz no asfalto. Uma Dogville sem paredes nem tectos, para a catarse perfeita.

Andy Webster abana a cabeça em negação para afastar a ideia. É agora, basta uma assinatura e compra a carta de alforria. Aquele velho de barbas demolhadas num canto escuro de uma casa com cheiro a podre vem-lhe à cabeça pela última vez. Uma gota num oceano, a bola de neve na avalanche e o «sim» decidido à história.

O clube tornou-se empresa, o espectador passou a cliente, mas o jogador ficou jogador. Jogador, não empregado. Os adeptos, que vêem sempre roxo onde às vezes está amarelo, precisam de símbolos e não de homens de fardas cinzentas, com o logótipo na lapela e o lápis afiado na orelha. Os directores, que insistem no genocídio do futebolista ao retirar-lhe voz e peso, desejam paradoxalmente que o adepto se reaproxime do ídolo e continue a ser tão romântico como os primeiros a ver o association. O jogador-funcionário espera o cheque depois do hat trick ou do autogolo, e vê NIF onde muitos lêem Más que un Club, Et Pluribus Unum ou You ll Never Walk Alone. Os que vibram com o Barça, o Benfica ou o Liverpool acabam de cuspir insultos e deixar esta página. Mas vale para todos os outros também.

O futebolista diz o que lhe dizem para dizer, sente o que lhe dizem para sentir, joga como lhe dizem para jogar. Agrilhoado a um monte de papeis rubricados em todas as folhas e cheio de deveres, mas sobretudo esmagado pelo preço sempre astronómico que o transformou em mercadoria. É um escravo de luxo.

O barbudo Webster ainda ouve o tímidos burburinho lá fora. Levanta-se corcunda, a custo, serpenteando entre móveis desaparecidos até à janela empenada. Espreita. Gaitas de foles. Uma vedação feita de casse-têtes e capacetes. Miúdos olham por cima das estátuas de bronze de pernas afastadas, peitos para fora e olhares no vazio. As vozes sobem uma nota, alguém o vê. Atiram-lhe uma bola para o quintal. Aplaudem. Afinal, aquilo não era um pelotão de linchamento. O televisor mostra-lhe a sua casa e explode em letras garrafais: fim das transferências milionárias. Uma ex-modelo à porta diz ao seu público que, agora, cada jogador pode escolher onde quer jogar. Os ordenados vão deixar de chegar à estratosfera, estarão bloqueados perto do topo, e o futebol voltará a mudar. Agora sim, todos os slogans fazem sentido. Pode voltar a paixão. De braços esticados na poltrona coçada, o ancião fecha os olhos para descansar.

(by Luís Mateus)

Perfil

Lisboa, Portugal
Subdirector do IOL e do Maisfutebol
Tempos livres: webdesign e criação de gatos Bosques da Noruega

Breve currículo:

2009 - (...) - IOL - Subdirector
2006 - 2008 - Maisfutebol - Editor
2005 - jornal Metro - Chefe de Redacção
2004 - 2005 - jornal Metro - Editor
2000 - 2004 - Maisfutebol - jornalista
1999-2000 - Terraportugal.com - Coordenador Editorial
1996-1999 - A Bola - jornalista

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