quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Seremos assim tão bons como os outros?

Deus ex machina! Deus ex machina! Como numa peça de teatro grega de mau gosto, Zeus desce suspenso por cabos para atar as pontas soltas da estória. Enquanto um país implode inteiro em ondas de assaltos, discussões sobre o preço das octanas e a intensificação do pavor de voar, a competitividade de um filho de pais cabo-verdianos, nascido na Costa do Marfim, mas português de espírito e campeão de coração, traz de volta a honra e embevece os olhos de milhões a olhar para a bandeira. Uma força extraordinária sustenta-o no terceiro salto, dá-lhe o final feliz que merece.

Dezassete anos depois do segundo e último título mundial do futebol português, selado na Velha Luz pelo pé direito de Rui Costa, não se conhece alquimista capaz de voltar a juntar talento ao trabalho e de criar equipas vencedoras. Uma pitada de drible, um remate eficaz, três medidas de arrojo, quatro de inteligência, mexer bem.... Em nome do presente e de um treinador campeão do mundo reduziu-se o investimento da formação e, aos poucos, começou a faltar a capacidade de dizer presente. Primeiro em finais, depois em meias-finais e daí para baixo. O estatuto deixou de ser o mesmo.

Recuperou-se o alquimista, enriquecido por 17 anos a vaguear pelo mundo, mas hoje mais preocupado, por ser essa a sua missão, em transformar rápido carvão em ouro, do que em lapidar diamantes para reinventar algo novo. O presente é mais importante do que o futuro, apesar de ele ter sido importante para o presente no passado. O deus saído da máquina tem surgido uma vez atrás da outra para atar pontas soltas. Cristiano Ronaldo, Ricardo Quaresma, Manuel Fernandes, João Moutinho, Miguel Veloso e outros foram aparecendo nos respectivos clubes, sobretudo em Alcochete, onde há largos anos se trabalha para o amanhã, corrigindo as falhas da história.

De quatro em quatro anos, dez milhões de portugueses acreditam que por o país ter surpreendido o resto do planeta séculos atrás temos dentro de nós algo especial que nos faz ombrear com outros de países mais ricos, mais numerosos, mais avançados tecnologicamente e na metodologia de treino, e mais interessados, sobretudo. Num país em que só pensa em futebol, e quase nunca na beleza do jogo mas em questões adjacentes como ganhar, perder e o árbitro, só se fala de atletismo, natação, judo e outras mais modalidades durante os Jogos Olímpicos.

Recordo uma escola secundária de aspecto pré-fabricado, campo de alcatrão, com duas tabelas e uns traços pintados a laranja a cortá-lo a meio. Balizas de andebol/futebol nas pontas, um rectângulo de areia ao fundo para uns saltinhos e uma trave para as elevações. Pavilhão de mosaicos abrasivos para o voleibol, o badminton e os trampolins, um ginásio para pinos e cambalhotas. E há quem não tenha tanto. Um ano escolar era a soma disto tudo, uma mistura que nunca agradava a ninguém e motivava poucos. Só os núcleos mantinham vivas uma ou outra modalidade. Na Universidade, a falta da obrigação de educar o físico ainda tornava a história mais dramática. Paradoxalmente, nos Estados Unidos, bebe-se das escolas, do liceu às universidades, o sangue novo da maior parte das modalidades.

Um dia, as roldanas vão enferrujar e custar a mover-se, deus ex machina não chegará a tempo para corrigir a trama. Estará Portugal, que infelizmente não tem adeptos de desporto mas de clubes, preparado para sobreviver a uns Jogos sem uma medalha ou a uma geração sem craques na relva? Provavelmente esse sangue que nos fez donos de metade do mundo no passado ainda exista em algumas veias e surja um ou dois sobreviventes da falta de cultura e da política desportiva reinante. Mas isso será até quando?

(by Luís Mateus)

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

A lógica do 6 no futebol moderno

Desenhando elipses como um pêndulo de Foucault, o 6 volta sempre ao ponto de partida, depois de reequilibrar a equipa. Vai e volta, preenchendo vazios e anulando equívocos pelo meio, com a bola recuperada, pronto para definir os tempos dos ataques como andamentos musicais. Bola para a direita em grave ou em adágio, avançomoderato, trocas de bola em allegro ma non troppoe contra-ataque vivace. O 6, esse número que alguém, um dia, decidiu vulgarizar com o nome de «trinco», é mais do que um destruidor de jogadas adversárias e amigo dos apanha-bolas. Deverá ser, se o futebol faz realmente sentido, o ponto de equilíbrio de tudo.

A certa altura pensou-se que qualquer um podia jogar ali, sobretudo se tivesse porte e ganas de não perder uma jogada. Centrais ou laterais, a adaptação parecia de pouco risco. Depois, antes e ao mesmo tempo, porque no futebol nada é cronológico excepto os troféus, viu-se que um não bastava, eram precisos dois. Até o Brasil, heresia! Até o «escrete», onde a bola sempre teve uma direcção, em ésses mas apenas uma, baixou sectores para ser campeão do mundo. Mais tarde, em França, Zizou também precisou de uma guarda de honra de três médios-defensivos, Deschamps, Petit e Vieira, para se tornar imperador de todo o continente.

Por cá F.C. Porto, Benfica e mesmo Sporting procuram o seu «6». A norte, Jesualdo Ferreira disfarça o rombo-Assunção com um «oito» colombiano sob disfarce. Com Katsouranis dividido entre a defesa e o meio, um francês desconhecido é a aposta encarnada na força e na disponibilidade física em detrimento da juventude e arte de Fillipe Bastos. Em Alvalade, Miguel Veloso, o natural dono da posição, começou a temporada no banco. Moutinho, que já fez de tudo e mais alguma coisa, tirou quatro unidades ao número com que começou a carreira, o 10, na primeira partida oficial do ano.

O meu «6» é redondo e não quadrado. É Fernando Redondo, sublinho. Talvez o melhor de sempre. Alex Ferguson também concordou, quando disse, depois de ver a sua equipa destroçada, que tinha íman nas botas. Nos quartos-de-final da Champions de 2000, em Old Trafford, construiu sobre a faixa esquerda, de calcanhar e entre as pernas de Berg a jogada que daria o terceiro golo «merengue» (2-3), marcado por Raúl. The backheel of Old Trafford (o calcanhar de Old Trafford) - ficou assim conhecido esse lampejo de autonomia de um «trinco», capaz de aparecer junto à baliza contrária para decidir um jogo.

O meu «6» é também o geómetra Paulo Sousa, um dos melhores portugueses de todos os tempos, desenhando triângulos no Del Alpi e um pouco por todo o planeta com as cores da Selecção. É o ex-10 Andrea Pirlo, talvez o melhor lançador de ataques do futebol moderno. Escondido atrás de uma parede levantada por Gattuso, Ambrosini e Seedorf, experimenta, furtivamente, as alas com venenosos passes longos, enquanto não segue também ele até à frente para resolver à entrada da área.

Não sei se é de mim, mas sente-se que o jogo está a querer voltar a mudar. As equipas voltam a preocupar-se com o ataque, privilegiando os artistas. Os «trincos» são menos, o «6» tem novamente metros quadrados livres para afirmar-se. A posição pode deixar de ser o refúgio de quem tem pouco jeito para o jogo e integrar-se também na velha ideia de Rinus Michels. O futebol, leia-se a bola, não é só para alguns, é total.

(by Luís Mateus)

Perfil

Lisboa, Portugal
Subdirector do IOL e do Maisfutebol
Tempos livres: webdesign e criação de gatos Bosques da Noruega

Breve currículo:

2009 - (...) - IOL - Subdirector
2006 - 2008 - Maisfutebol - Editor
2005 - jornal Metro - Chefe de Redacção
2004 - 2005 - jornal Metro - Editor
2000 - 2004 - Maisfutebol - jornalista
1999-2000 - Terraportugal.com - Coordenador Editorial
1996-1999 - A Bola - jornalista

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