quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Um derby é... um derby

Um derby é um derby. (Atenção, se quiser ler à frente de um cidadão inglês sem correr o risco de ser insultado, deve trocar o «e» por um «a»: [dár-bi]). As teorias da origem da palavra são muitas e, tantos séculos depois, há apenas uma certeza: tudo aconteceu em Derbyshire County. Mas aí ficou o nome e desapareceu o conteúdo. No futebol inglês, não há derbies em Derby, sobretudo desde que Derby County e... Derby Midland uniram forças e recursos. O Nottingham Forest, da cidade vizinha, é o mais parecido que há com um rival.

Pelo resto do mundo, nasceram, cresceram e serão eternos. As quatro vezes que a Premier escocesa coloca pela frente os católicos do Celtic e os protestantes do Rangers não vulgarizou o Old Firm. Em Glasgow joga-se muito mais do que futebol, cada golo é uma afirmação religiosa e social. A sul, o Boca-River na Bombonera ou no El Monumental foi chamado Superclásico tal a intensidade dos jogos entre os clubes, que representam classes sociais opostas: os bosteros, chamados assim porque La Boca ficava sempre muito suja pelas charrettes movidas a cavalo, e osmillionarios, alcunha dada quando River era o mais rico das Pampas.

O «Fla-Flu» dá entrada a mais de cem mil no Maracanã, numa rivalidade nascida há quase um século, quando jogadores insatisfeitos do Fluminense fundaram a secção de futebol do Flamengo. Na Dinamarca, os derbies são batalhas. A Batalha da Jutland, que opõe Aalborg e Aarhus, é apenas um exemplo. Ainda na terra de Andersen, o Copenhaga-Brondby recebeu o nome de New Firm, numa alusão ao Old Firm escocês. O fanatismo dos gregos incendeia anualmente o Panathinakos-AEK. Milan-Inter, Roma-Lazio, Juventus-Torino e Génova-Sampdoria são exemplos de que um estádio em comum - o Torino mudou-se para o Olímpico em 2006/07 e antes do DelAlpi já tinha dividido com a «Juve» o Comunale - e adeptos fanáticos podem fazer coexistir inimigos ancestrais e poderosos na mesma cidade.

Na Sérvia, o Partizan-Estrela Vermelha coloca em sentido 82 por cento da população e não escapa à violência. Mais seguros, apesar do significado político, são o Real-Atlético e o Barcelona-Espanhol. Na Catalunha, ser culé significa ser e pensar catalão, enquanto os de Montjuic cantam o hino espanhol. Mas é preciso voltar ao outro lado do Atlântico para encontrarmos o jogo com mais anos de história fora da Grã-Bretanha. Em Montevideu, Uruguai, o Peñarol-Nacional também é Superclásico.

Em Portugal, há o Benfica-Sporting e nenhum outro derby fica perto. Há sempre uma história diferente. Porque se joga a honra, porque se defende a imagem, porque os olhos de milhões estão em cima de jogadores, treinadores e dirigentes. Qualquer golo ou erro toma proporções bem maiores do que o normal. Ainda mais do que em todos os outros encontros, o árbitro não é um juiz, mas sim réu, já condenado antes de decidir. Já jogadores e treinadores ainda têm o benefício da dúvida, até prova em contrário. Todos querem jogá-lo (vê-lo, e apitá-lo também) e sujeitar-se ao risco. Mesmo que uma vida possa mudar com uma decisão. Resta esperar que seja acertada.

A verdade é que aos adeptos só interessam os números. Por quanto se ganhou e quanto da frustração de um mau resultado se pode despejar em cima do árbitro. Um penalty ou dois, um fora-de-jogo. Tudo não passa de uma guerra tribal. Quando não usam argumentos mais violentos ainda no estádio, dividem-se em trocas de palavras que não pretendem chegar a lado nenhum. Um jornal desportivo debaixo do braço, a camisola do clube retirada ao mofo do armário na manhã seguinte, o pedido em letras gordas de um café. O sorriso mordido no canto da boca e depois, a explosão, como um disparo fulminante: «Então o jogo de ontem, hein?»

(by Luís Mateus)

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Bento, simplesmente o maior de todos

Punhos e dentes cerrados. Levanta-se decidido, depois de ter dedicado aos deuses a batalha que se aproxima. Grita para si em surdina: aguentar ou morte! Cabelos desgrenhados, bigode farto, torna-se feroz para crescer em centímetros e defender o último pedaço de território. A baliza fica mais pequena, em investidas tão perto de território inimigo, de braços esticados e pensamento suicida. Com cada defesa chegava a sensação de algo impossível que se tinha passado, contranatura, que o elevava ao pedestal dos heróis. Bento não tinha semelhante, era maior do que ele mesmo, quase sempre maior do que todos.

O 0-0 milagroso em Glasgow frente à Escócia numa das maiores exibições de um guarda-redes português, as espantosas defesas perante a França, apesar dos três golos sofridos, e tantos outros jogos seguros naquele jeito louco de sair dos postes entre o galope das pernas adversárias e no voar como se não houvesse chão lá em baixo. Esse orgulho contido, apertado num colete-de-forças de apenas 1,73 metros, e o desdenhar da gravidade de um gato de rua, com bem mais do que sete vidas, tornou-o um dos melhores da sua geração. A Bento faltava-lhe muita coisa, sobretudo o tamanho e a elegância felina dos rivais de raça apurada, mas tinha em excesso o rigor no trabalho, a vontade e o acreditar em si próprio.

Hoje que se discute Quim ou Ricardo, olha-se para trás e vemos Bento, imperturbável perante um Vítor Damas nado e criado na baliza. Sempre ao mesmo ritmo, sempre com a mesma qualidade, que lhe garantiram o número 1 na Selecção durante dez anos, até o perónio o trair em Saltillo, nesse Mundial do nosso descontentamento. Há quem coloque o recordista Vítor Baía uns degraus acima de todos, pelo currículo, elegância e talento. Por 12 anos de quinas ao peito, por grandes momentos no F.C. Porto. Mas poucas vezes lhe vimos o impossível, essa capacidade de ir sempre mais além. A Bento não.

Bento parecia um gladiador a sair da pequena área, feroz e pronto para tudo. Combatia por cada bola com um mártir e conseguia a bênção dos deuses. Fosse Six, Platini ou Giresse a aparecer-lhe à frente o mais certo era a bola sair pela linha de fundo, sem destino e perdida, ou acabar junto ao seu corpo perto de uma cicatriz ainda fresca.

Os guarda-redes mudaram. Refinaram-se, deixaram de ter tão mau feitio, perderam grande parte da dose de loucura. Deixaram de berrar atrocidades, culpar o mundo inteiro por um «frango», uma saída em falso. Tirando um ou outro exemplo, falta-lhes personalidade. Com personalidade tem-se confiança. É-se melhor.

Quim e Ricardo não são Baía nem Bento. Falta-lhes a naturalidade de um e capacidade de martírio do outro. São nomes que entram para a história por fazerem parte de um capítulo. Vão ser discutidos vezes sem conta no futuro, parece que um não vive nem irá viver sem o outro. Manuel Galrinho Bento tinha uma capacidade sobrehumana para ultrapassar todos os obstáculos. Cada vez que se lembravam de um fantástico Damas em grande forma, o homem da Golegã que o Benfica encontrou no Barreiro respondia em campo. E acabava com a questão.

(by Luís Mateus)

Perfil

Lisboa, Portugal
Subdirector do IOL e do Maisfutebol
Tempos livres: webdesign e criação de gatos Bosques da Noruega

Breve currículo:

2009 - (...) - IOL - Subdirector
2006 - 2008 - Maisfutebol - Editor
2005 - jornal Metro - Chefe de Redacção
2004 - 2005 - jornal Metro - Editor
2000 - 2004 - Maisfutebol - jornalista
1999-2000 - Terraportugal.com - Coordenador Editorial
1996-1999 - A Bola - jornalista

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