sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Acabar o dia com dois pés esquerdos

O dia chegou há pouco ao fim. É de mim, ou vocês também acham que foram 24 horas esquisitas? Dormi pouco, por isso não erro assim tanto quando falo em 24 horas. O Ian McEwan tem um livro que começa com esse momento em que raramente existimos, apenas dormimos sobre uma almofada de nada. Até que um rasto de um avião em chamas no horizonte, avistado de uma janela durante a madrugada, muda a nossa vida.

A margem de erro deve ser de, para aí, duas horas, mais ou menos, entre as 4 e as 6, e essa é sempre uma altura esquisita, aconteça o que acontecer. Acordei, tomei banho, vesti-me rapidamente, com medo dos segundos, e falhei os mais previsíveis engarrafamentos. Na rotunda da bomba, tudo passou bizarramente fluido, sem os carros da esquerda a fingir estar à direita, sem dupla fila no espaço de uma, sem latas-velhas irritantes, de mil e poucos cc de cilindrada, incapazes de corresponder à subida íngreme, depois de terem falhado, por pouco, o embate com o lugar do pendura.

Cheguei à redacção mais cedo do que o normal (cinco ou dez minutos, chefe!) e um bigode despertou-me da letargia. Ainda não tinha ingerido uma gota de cafeína, juro. O arbusto de pêlos olhava-me nos olhos, embasbacado

- Pimbolim é matraquilhos, banco é caixa

Do meio do jornal, o ex-ex-seleccionador nacional, agora ex-treinador do Chelsea, ainda Felipão (acho...), pedia com aquela convicção inabalável: «Tudo menos empate no derby». Oi?! Ainda pensei que houvesse jogo grande na Premiership, mas não, Scolari não queria era mesmo ver o F.C. Porto fugir na tabela aqui em Portugal. Que bom para ele!

O nonsense empurrou o grande Braga europeu para a direita, uma ilha isolada pelo absurdo. O futuro do Sporting anda dependente de umas luvas made in Carachi, Paquistão; Moreira a armar-se em La Palisse, sublinhando que as dúvidas sobre a carreira deram-lhe mais força para voltar; o lateral-direito Sapunaru a ser dado como certo no lugar do lateral-direito Fucile no lado direito da defesa portista em Paços. Ao menos o jornal é de graça...

Horas depois, reparo que Sócrates (não o jogador, o outro!) elogia o aumento do número de operações aos olhos entre portugueses. Vou ao twitter twittar qualquer coisa de parvo sobre isto e a ligação à internet falha depois. É nesta parte em que faz todo o sentido a cena de «A Guerra dos Mundos» e de Tom Cruise, a olhar para cima, para o ataque de OVNIS ciclopes e extraterrestres em fúria. Faltar a net numa redacção de um site é como ser atropelado por uma ambulância. God!

Afinal, de repente, tudo parece ter sentido. Sem a indicação da estrela e dos reis magos, sem a manjedoura, o burro e a vaca (a estreia do documentário de Kusturica por cá conta como sinal?), o incenso, a mirra e as especiarias, nasce o filho de Aguero, o neto de Maradona

Y todo el pueblo cantó
Maradó, Maradó

Metade dos genes de Kun, metade dos do Pelusa. Ou um quarto, se a genética se dividir em partes iguais. Sabem o que hoje já não seria nada estranho? Apesar de Sérgio ser fantástico, e de poder vir a ser um dos melhores, se houver Deus e gostar de bola, o miúdo Benjamin deve ter mesmo nascido... com dois pés esquerdos.

Era capaz de viver na Bombonera» é um espaço de opinião de Luís Mateus, subdirector editorial do IOL, que escreve aqui todas as semanas. Siga-o no twitter.


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Junta-te a eles, mesmo que sejam ingleses

Mais uma razão para os ingleses serem chauvinistas. Bah! «O futebol volta a casa», gritaram em 66 com acento cockney, para ganharem o seu primeiro e único título planetário no jogo de que reclamam a patente. We are the champions, my friend!, o hino imortalizado pelos Queen faria então todo o sentido, apesar de só ter sido escrito 11 anos depois por Freddy Mercury. Após o bigode e a franja grisalha do fiscal-de-linha terem dito sim, em uníssono, ao remate-electronic-arts de Hurst, nem o kaiser Beckenbauer conseguiu reunir os panzers alemães para novo assalto à terra de Churchill. Ouvia-se o eco, antes da explosão dos festejos a preto-e-branco e as imagens serem coloridas por cima:

We shall defend our island whatever the cost may be.
We shall fight on beaches, we shall fight on the landing grounds,
We shall fight in the fields and in the streets.
We shall fight in the hills,
We shall never surrender.

Mais de três décadas depois, já tinham Ronaldo, Bota e Bola de Ouro, melhor do mundo, da Liga dos Campeões e arredores. Pelo menos durante um ano ninguém lhe pode negar o estatuto. Sentando a um trono, olhando todos de lado e de cima para baixo, em pose de capa de videojogo, fingindo que não vê Berbatov, Rooney, Giggs, Tévez e Scholes a divertirem-se no relvado, justificando com trick shots uma possível candidatura a um prémio futuro. Do outro lado da cidade, Robinho. Em Londres, Cech, Drogba, Essien e Lampard; e ainda Nasri, Adebayor e Fabregas. Gerrard e Fernando Torres a acenar de Liverpool. Contem connosco! Alguém que joga em Inglaterra acabou de convencer todos os da FIFA e os candidatos aumentam.

Agora, como se já não fosse suficiente, ainda levam Quaresma e Arshavin. Finalmente, Ricardo terá o espaço que os italianos regateiam ao centímetro, cada quadrado de relva servido em tupperware como se fosse uma recordação de antes da demolição desse estádio. Já Andrej vai para um país onde os dribles valem mais do que brindes com vodka e uma palmada nas costas. Onde os ídolos são super-heróis e não operários sem face, peças de engrenagem de algo maior.

Aviso já! Se levarem para lá Kaká, Ibrahimovic e Messi faço já as malas. Se importarem também a classe do sucessor de Rui Costa em San Siro, os mísseis térmicos de Zlatan ou o futebol de rua do novo Maradona, não poderemos manter muito mais tempo o estado de negação: o centro do planeta acabou de mudar! O futebol, agora sim, estaria mesmo em casa, mesmo que não tenha nada que ver com o jogo que sempre se jogou aí. Se não lhes podes ganhar, junta-te a eles. Mesmo que eles sejam o raio dos chatos dos ingleses.


Perfil

Lisboa, Portugal
Subdirector do IOL e do Maisfutebol
Tempos livres: webdesign e criação de gatos Bosques da Noruega

Breve currículo:

2009 - (...) - IOL - Subdirector
2006 - 2008 - Maisfutebol - Editor
2005 - jornal Metro - Chefe de Redacção
2004 - 2005 - jornal Metro - Editor
2000 - 2004 - Maisfutebol - jornalista
1999-2000 - Terraportugal.com - Coordenador Editorial
1996-1999 - A Bola - jornalista

Fale comigo no

Fale comigo no
Uma nova forma de comunicar

Twitter / luismateus

Etiquetas