Quarta-feira, 4 de Março de 2009

O druida e a missão impossível

Imaginem-se, porque os tempos que correm são estes e não outros, e apenas por isso, em frente de um fogão a gás e uma panela anti-aderente. Um génio todo-poderoso, mau como nos livros de Marvel, mas de fato e gravata, e sapatos de verniz, pediu-vos a vós, druidas dos tempos modernos, de barbas ralas, coçados casacos de fazenda e cabelos semi-oleosos, que inventásseis o atacante perfeito.

Letal, imparável, goleador, o melhor futebolista de todos os tempos. O melhor! Sim, melhor do que quem estão a pensar, muito melhor do que qualquer um que viram de perto ou na televisão. O objectivo não interessa para nada, mas pode ser «conquistar o mundo». Fica bem. Ou então ser rico, que vai dar ao mesmo.

Enquanto esse joker de Gotham City está na sala, a interrogar-vos em silêncio, a medir o QI em piscadelas e tiques, fingem que pensam. Trazem livros amarelados das prateleiras temperadas pelo pó. Folheiam. Cortam o indicador nas folhas aguçadas, lambem o dedo. Sentem o peso do mundo sobre as costas, enquanto o sabor a ferro vos lembra, sem pudor, o quanto as aparências iludem.

Mais tarde, em silêncio, a escuridão abraça-vos, enquanto olham para o gato a dormir, sem curiosidade perante a proximidade de tal façanha. Incrível, sem curiosidade, como se o instinto lhe dissesse Deixa lá, é uma missão impossível!

Lume brando para preparar a poção. Temos de começar por algum lado. Metade do pé esquerdo de Roberto Carlos, a outra do de Messi. Meio pé direito de Nelinho, meio de Zico. O jogo de cabeça de Jardel, o instinto de Van Basten, a capacidade atlética de Hugo Sánchez. Metade da humildade de Kaká, a outra metade enchida com a arrogância de Cantona. O primeiro toque de Romário, a inteligência de Cruijff, o génio de Maradona. A presença de Pelé, a teimosia de Garrincha, a potência de Cristiano Ronaldo. A meia-distância de Arie Haan. O que mais?

Todos teríamos medo, a certa altura, de nos estarmos a esquecer de algo. A consistência de Raúl, a raça de Eusébio, os truques de Zidane. Algo que pudesse estragar a obra. Um defeito estúpido que estoire com a cadeia de ADN, destrua com a invenção, destrua todo o trabalho sem deixar rasto. Raios! Esquecemos algo?!

Puxamos os cabelos, roemos as unhas, coçamos a barba que já se tornou farta. Revemos tudo, ingrediente a ingrediente, isolamo-nos do mundo e das distracções. Esquecemo-nos da televisão, do telefone, da luz do dia. Esbugalhamos os olhos para nos vermos do outro lado do espelho.

Vocês, adeptos, que hierarquizam tudo... Para vós não há dois ou três melhores do mundo, há sempre um que é mais do que os outros. Digam-me: esquecemos alguém?

Não, deixem lá, não temos tempo. Fizemos um pacto com o diabo e temos prazos para cumprir. Daqui a pouco toca-me à campainha uma mala cheia de dinheiro. O futebol vai acabar, mas, que fazer, não me importa. Vai deixar de ter piada. Raios?! O que fui eu fazer?

Tocam! É sempre nesta altura que aparece à porta o vizinho, como num bom filme de Hollywood. A deixa. Nem sabes o que me aconteceu... Pois. Não, não sei. Tens a casa a arder? Foste assaltado? A tua mulher deixou-te? Apanhaste-a com outro. O sorriso diz logo que não. Não, pediram-me para fazer rejuvenescer a melhor equipa de sempre, o Brasil de 1970. E até consegui convencer o Mourinho a treiná-la.

Estás a gozar?!

Domingo, 1 de Março de 2009

O futebol português não acaba em Espinho

Atenção: este texto acarreta sérios riscos. Sócrates fala à minha esquerda, já sem a lágrima ao canto do olho, e de vez em quando o twitter dá sinais de si à direita do meu ecrã, reagindo às tiradas do primeiro-ministro. Por isso, não me responsabilizo, escrevo dividido entre a mania da perfeição e a acidez da crítica, sinto que terei dificuldades em encontrar o tom no meio desta página em branco. Mas, pronto, é aqui que entra o «lá terá de ser».

O fim-de-semana foi recheado de emoções. O Fantasporto terminou com prémio maior para o humor, os Césares foram dominados por «Séraphine». Os U2 actuaram no terraço da BBC para surpresa de milhares, que fotografaram com os telemóveis. A Força Aérea canadiana interceptou bombardeiros russos antes da visita de Obama. E o risco de grandes atentados foi denunciado pela Interpol. A coxa de Carlos Martins e o corte infeliz de Balboa quase traíram o Benfica perante o ambicioso Leixões; no Dragão, já sabendo que a águia tinha encontrado o antídoto a tempo de parar o veneno, dois muros chocaram a medo, perderam alguns tijolos, mas continuaram de pé.

Não vi, não sei, e depois de ler algumas opiniões, parece-me que o clássico acrescentou pouco, muito pouco, talvez quase nada, ao futebol português. Não vi, porque me disseram um dia que rir de mais faz mal, e não consigo parar de cada vez que olho para Rochemback, lembrando-me daquele tackle aterrador de há alguns dias, na goleada sofrida perante o Bayern. Não quero perturbar com isto o luto dos sportinguistas, a vergonha da sua cara segundo uma faixa no estádio do clássico, mas acho que todos nós devemos ser capazes de rir com os nossos erros.

Jesualdo disse depois que os portistas perderam dois pontos, Bento que a garrafa ainda estava inteira, Quique, na festa de aniversário dos da Luz, acrescentou que quer festejar um título em Maio. Reforço a minha convicção de que nada mudou. O F.C. Porto apenas depende de si, o Benfica mantém a esperança e o Sporting vai continuar à espera das falhas de outrem. Já José Sócrates parte com mais de vinte pontos de avanço para a recta final do seu campeonato.

Já se cantou o hino em Espinho. Fala agora o representante do Bloco de Esquerda, principal adversário político dos socialistas de acordo com as conclusões do congresso, onde não se discutiu o desemprego e quase não se abordou a crise. As cadeiras esvaziaram depressa, como num jogo de futebol ainda nos descontos, numa fuga clara ao trânsito. No Porto, Liedson ia chegando levezinho ao golo nas duas melhores oportunidades do jogo, coisa que os da casa não tiveram a seu favor.

Os leões precisavam de mais e tentaram pouco, o F.C. Porto podia ter resolvido quase tudo e faltou-lhe ambição. E o Benfica continua a ser demasiado frágil a ameaças externas, mesmo quando tem tudo para que não seja assim.

Enfim, é o país que temos. Não podemos é acreditar que acaba em Espinho.

Sexta-feira, 20 de Fevereiro de 2009

Acabar o dia com dois pés esquerdos

O dia chegou há pouco ao fim. É de mim, ou vocês também acham que foram 24 horas esquisitas? Dormi pouco, por isso não erro assim tanto quando falo em 24 horas. O Ian McEwan tem um livro que começa com esse momento em que raramente existimos, apenas dormimos sobre uma almofada de nada. Até que um rasto de um avião em chamas no horizonte, avistado de uma janela durante a madrugada, muda a nossa vida.

A margem de erro deve ser de, para aí, duas horas, mais ou menos, entre as 4 e as 6, e essa é sempre uma altura esquisita, aconteça o que acontecer. Acordei, tomei banho, vesti-me rapidamente, com medo dos segundos, e falhei os mais previsíveis engarrafamentos. Na rotunda da bomba, tudo passou bizarramente fluido, sem os carros da esquerda a fingir estar à direita, sem dupla fila no espaço de uma, sem latas-velhas irritantes, de mil e poucos cc de cilindrada, incapazes de corresponder à subida íngreme, depois de terem falhado, por pouco, o embate com o lugar do pendura.

Cheguei à redacção mais cedo do que o normal (cinco ou dez minutos, chefe!) e um bigode despertou-me da letargia. Ainda não tinha ingerido uma gota de cafeína, juro. O arbusto de pêlos olhava-me nos olhos, embasbacado

- Pimbolim é matraquilhos, banco é caixa

Do meio do jornal, o ex-ex-seleccionador nacional, agora ex-treinador do Chelsea, ainda Felipão (acho...), pedia com aquela convicção inabalável: «Tudo menos empate no derby». Oi?! Ainda pensei que houvesse jogo grande na Premiership, mas não, Scolari não queria era mesmo ver o F.C. Porto fugir na tabela aqui em Portugal. Que bom para ele!

O nonsense empurrou o grande Braga europeu para a direita, uma ilha isolada pelo absurdo. O futuro do Sporting anda dependente de umas luvas made in Carachi, Paquistão; Moreira a armar-se em La Palisse, sublinhando que as dúvidas sobre a carreira deram-lhe mais força para voltar; o lateral-direito Sapunaru a ser dado como certo no lugar do lateral-direito Fucile no lado direito da defesa portista em Paços. Ao menos o jornal é de graça...

Horas depois, reparo que Sócrates (não o jogador, o outro!) elogia o aumento do número de operações aos olhos entre portugueses. Vou ao twitter twittar qualquer coisa de parvo sobre isto e a ligação à internet falha depois. É nesta parte em que faz todo o sentido a cena de «A Guerra dos Mundos» e de Tom Cruise, a olhar para cima, para o ataque de OVNIS ciclopes e extraterrestres em fúria. Faltar a net numa redacção de um site é como ser atropelado por uma ambulância. God!

Afinal, de repente, tudo parece ter sentido. Sem a indicação da estrela e dos reis magos, sem a manjedoura, o burro e a vaca (a estreia do documentário de Kusturica por cá conta como sinal?), o incenso, a mirra e as especiarias, nasce o filho de Aguero, o neto de Maradona

Y todo el pueblo cantó
Maradó, Maradó

Metade dos genes de Kun, metade dos do Pelusa. Ou um quarto, se a genética se dividir em partes iguais. Sabem o que hoje já não seria nada estranho? Apesar de Sérgio ser fantástico, e de poder vir a ser um dos melhores, se houver Deus e gostar de bola, o miúdo Benjamin deve ter mesmo nascido... com dois pés esquerdos.

Era capaz de viver na Bombonera» é um espaço de opinião de Luís Mateus, subdirector editorial do IOL, que escreve aqui todas as semanas. Siga-o no twitter.


Quinta-feira, 5 de Fevereiro de 2009

Junta-te a eles, mesmo que sejam ingleses

Mais uma razão para os ingleses serem chauvinistas. Bah! «O futebol volta a casa», gritaram em 66 com acento cockney, para ganharem o seu primeiro e único título planetário no jogo de que reclamam a patente. We are the champions, my friend!, o hino imortalizado pelos Queen faria então todo o sentido, apesar de só ter sido escrito 11 anos depois por Freddy Mercury. Após o bigode e a franja grisalha do fiscal-de-linha terem dito sim, em uníssono, ao remate-electronic-arts de Hurst, nem o kaiser Beckenbauer conseguiu reunir os panzers alemães para novo assalto à terra de Churchill. Ouvia-se o eco, antes da explosão dos festejos a preto-e-branco e as imagens serem coloridas por cima:

We shall defend our island whatever the cost may be.
We shall fight on beaches, we shall fight on the landing grounds,
We shall fight in the fields and in the streets.
We shall fight in the hills,
We shall never surrender.

Mais de três décadas depois, já tinham Ronaldo, Bota e Bola de Ouro, melhor do mundo, da Liga dos Campeões e arredores. Pelo menos durante um ano ninguém lhe pode negar o estatuto. Sentando a um trono, olhando todos de lado e de cima para baixo, em pose de capa de videojogo, fingindo que não vê Berbatov, Rooney, Giggs, Tévez e Scholes a divertirem-se no relvado, justificando com trick shots uma possível candidatura a um prémio futuro. Do outro lado da cidade, Robinho. Em Londres, Cech, Drogba, Essien e Lampard; e ainda Nasri, Adebayor e Fabregas. Gerrard e Fernando Torres a acenar de Liverpool. Contem connosco! Alguém que joga em Inglaterra acabou de convencer todos os da FIFA e os candidatos aumentam.

Agora, como se já não fosse suficiente, ainda levam Quaresma e Arshavin. Finalmente, Ricardo terá o espaço que os italianos regateiam ao centímetro, cada quadrado de relva servido em tupperware como se fosse uma recordação de antes da demolição desse estádio. Já Andrej vai para um país onde os dribles valem mais do que brindes com vodka e uma palmada nas costas. Onde os ídolos são super-heróis e não operários sem face, peças de engrenagem de algo maior.

Aviso já! Se levarem para lá Kaká, Ibrahimovic e Messi faço já as malas. Se importarem também a classe do sucessor de Rui Costa em San Siro, os mísseis térmicos de Zlatan ou o futebol de rua do novo Maradona, não poderemos manter muito mais tempo o estado de negação: o centro do planeta acabou de mudar! O futebol, agora sim, estaria mesmo em casa, mesmo que não tenha nada que ver com o jogo que sempre se jogou aí. Se não lhes podes ganhar, junta-te a eles. Mesmo que eles sejam o raio dos chatos dos ingleses.


Terça-feira, 13 de Janeiro de 2009

Ronaldo e o futebol das coisas simples

Sei que acabámos de passar pelo tempo dos corações inflamados, actos magnificentes, concertos Strauss, colectânias e CD de canto lírico e gregoriano, discursos políticos de regresso à prosperidade e, infelizmente, respostas estúpidas sobre o valor do salário mínimo em programa de TV. O futebol fez um compasso de espera, à procura de um Xamã, um ilusionista poderoso, capaz de fazer desaparecer a Muralha da China debaixo de um manto de cetim vermelho.

Olhou para o lado em busca de um líder, um regente depois de Maradona, que conduzia homens, e não ratos, com flauta invisível e vingando-se de uma nova Hamelim. Ou um Napoleão de caneleiras e cabelo desgrenhado, de mão ao peito, protegendo o símbolo do futebol nas Pampas. E quem não associa o Pelusa a Guevara nessa imagem que correu mundo, de olhos fechados sentado num campo à beira da estrada, qual revolucionário de convicções inabaláveis e capaz de escrever o seu nome na história para sempre? O trono estava vazio, o futebol triste, o planeta foi a votos e escolheu Ronaldo.

Ctrl, Alt e... Del com o indicador direito, os dedos alinhados para fechar em vozeirão grave de piano, depois de o meu Magalhães ter feito blue screen. Temo que um Sir Humphrey qualquer salte da BBC, faça ar de bife espantado e diga simplesmente Yes, Prime Minister! O futebol parou para recuperar fôlego, para se lembrar de grandes momentos e esquecer erros, insultos e dedos apontados em riste, discussões à volta do valor da galinha ou galo de combate em tempos de crise. Não havia dúvidas, não podia haver. Tinha de ser Cristiano!

Esperem, alguém sabe a diferença horária para a Índia? Há de certeza uma central de informações em Bombaim ou Calcutá. Uma voz de sinal na testa sussurra-me e eu respondo a poupar palavras como se fosse um telegrama. Phone number. Susanne Arundhati Roy, please. Qualquer coisa antes de sorry e do bip, confidente por vezes, hoje bem irritante. Ninguém como ela tinha percebido a simplicidade do mundo, quem melhor para vos explicar?

Há onze anos, quase 12, O Deus das Pequenas Coisas, poucos meses depois de ter ganho o Booker Prize, abriu-se à minha frente como manual de druida. Não me fez feliz ou triste, não se tornou no livro da minha vida ou, muito menos, aquela decepção que adoramos humilhar a cada conversa. Roy desceu do seu pedestal humano e passou a olhar o mundo ao nível da cintura. Ajoelhou-se ao tamanho de uma criança, coloriu cada cena com lápis de cor e feltro, viu pessoas feitas de papel de lustro - ou não viu, já não me lembro - e todas as coisas passaram a ter um peso diferente.

No dia em que o futebol fez justiça a um português e em que já se sente Messi a pulsar como o maior candidato para daqui a um ano, os grandes vencedores foram os dribladores, os reis das fintas, todos os que acham que o caminho mais curto para a baliza é uma sucessão de oitos. Hoje, apesar de feliz, prefiro olhar, como essa indiana de nome esquisito, para as coisas simples. Para a subtileza da finalização de Torres, para a inteligência de Kaká em todos os movimentos no Milan, para a geometria perfeita dos passes de Xavi. Todos eles, à sua maneira, são o Melhor do Mundo. Não terá a FIFA mais daqueles prémios em stock? Vá lá...

Sexta-feira, 12 de Dezembro de 2008

É mais uma dose de ópio, por favor!

Sento-me com uma folha branca à minha frente. O relvado tornou-se pelado, os ferros das balizas ainda mais ocos debaixo da ferrugem podre do tempo, voam metades de arbustos em cenário de Faroeste, sem pistoleiros ou sioux por perto. Apenas o vazio, enquanto não surge algo do canto esquerdo do ecrã, a faca de Psycho ou uma bola no pé esquerdo de Messi, e faça escorrer pelas paredes os agudos que dão a intensidade ao terror ou nos encaminham para o remate, para uma das conclusões de Aristóteles...

Se um homem bom passa da má à boa fortuna, não sentiremos terror;
Se um homem bom passa da boa para a má fortuna, ficamos com pena, e não sentimos compaixão ou terror;
Se um homem mau passar da boa para a má fortuna, ficamos felizes;
E se um homem mau passar da má para a boa fortuna, sentimos repugnância.

O país compara o peso do seu fardo, grama a grama, e forma tabelas de desgosto. Conta cêntimos, pede e rasga consultas de saldo de Multibanco, faz luas e meias-luas à volta de ofertas de emprego, recusa sobremesa ao almoço, atrasa pagamentos até ao limite, raciona a gasolina em prestações de dez euros. Suazo corre para a baliza em galope de centauro e arma a besta para um grande golo, Lucho sublinha com stickada de classe que vale o seu peso em ouro, Liedson chega de cabeça tão leve como a alcunha para o mais provável dos festejos.

O fabuloso pontapé de moinho de Deco frente ao Bolton dera o mote. Cristiano embala, com a Bola de Ouro a tiracolo, mas desta vez fica em branco. Já Lisandro esquece-se de todos os tiros ao lado com um golaço e deixa a vendetta a meio-caminho depois do 4-0 de Londres. A visão de camaleão de Milevskiy inventa o golo de Eremenko, Ribéry destroça compatriotas com dois passes de mágica de Fantasma da Ópera, Ngog faz disparar os próprios batimentos cardíacos, com a mão debaixo da camisola e o punho-coração a pular-lhe do peito. Riera martela a baliza do PSV com um míssil terra-ar e Ibrahimovic faz mais um que deve ser visto e revisto mais tarde no Youtube.

Nós, que também somos eles, sentimo-nos mais próximos de Ribéry e Tévez, que trazem na face as cicatrizes do sofrimento, e do miúdo Messi, que sobreviveu à doença que o impedia de crescer. Odiamos o gel capilar e a arrogância de Cristiano Ronaldo, quando se acha o melhor de todos, ou o discurso de Mourinho, de peito feito para o Mundo.

Criticámos o mau feitio de Zidane e esperávamos que perdesse tantas vezes quantas nos fez sofrer, depois daquele penalty de Abel Xavier, e aprendemos a sorrir com os truques de Ronaldinho e Roberto Carlos. Aplaudimos quando o «canibal» Materazzi (sim, a alcunha é de Boulahrouz, mas serve) é expulso e, se pudéssemos voltar atrás no tempo, entraríamos em campo para dar dois estalos em Gentile por cada porrada que desse em Maradona. Se ainda formos a tempo, faremos força para que entrem todos os livres de Zico. Porque merece! Queremos sempre que o jogo seja justo, mas, infelizmente, os deuses não distribuíram talento e sorte em partes iguais.

Distinguimo-los com o coração. Revemo-nos neles em cada jogada, colocamo-nos sempre no seu lugar. Até eu, com esta barriguinha... E é isso que faz o futebol, o que nos faz vibrar. Não é só Cristiano Ronaldo que falha um golo, somos todos nós. Eu, tu, também Messi um pouco, Fernando Torres, Kaká... Sou mais eu que gosto dele do que tu que julgas que não gostas, mas também tu. A bola nos seus pés é um luxo, a crise não existe, o país não acabará o ano em recessão, não há ameaças de uma passagem de ano com solas de bota cozidas em vez de peru. Nem para ti, Chaplin. Enquanto somos eles não somos nós.

É mais uma dose de ópio para esta mesa, por favor.

Sábado, 29 de Novembro de 2008

Não te perdoo, Roberto!

Não gozes comigo, Roberto! Nunca deixaria que fosses um post scriptum de um texto. Corre para a bola e chuta com toda a tua força, com as ganas que assimilaste em Espanha, com a obsessão que te emprestaram os turcos. Pensa que é o butterhands Barthez e dá-lhe com meio pé, enrola-a até bater com tom de aviso no ferro e esgueirar-se para dentro, percorrendo as redes de um lado ao outro em lenta volta de honra, agradecendo a ovação de pé.

Faz isso e esqueço que sou português, esqueço que esse golo adia a qualificação do F.C. Porto, que a tua exibição não está a ser brilhante, que a pêra que hoje usas torna-te camaleão entre os Semih Şentürk da tua equipa. Acerta esse remate porque mereces. Foste grande como poucos! Talvez o melhor de sempre! Ainda que haja compatriotas teus, os mais velhos, que jurem, a bater no peito e de terço gasto entre os dedos, que ceptro e manto são e serão sempre da «Enciclopédia» Nilton Santos. Sim, há italianos que só têm olhos para Maldini e alemães que ainda lembram Breitner. Puff! Eles sabem lá o que dizem...

Marca esse golo! Tens 35 anos, é a última jogada do encontro, pode ser a última vez que te vejo correr de dedos apontados para o céu a sorrir, depois de mais um míssil decisivo. Lembra-te daquela impossibilidade matemática frente ao Tenerife, em quinta a fundo quase a esbarrar com os placares, e de tantos outros momentos de génio, monumentos que todos somados nunca chegaram para te eleger melhor do mundo. Não, não passes, o que vais tu fazer? Enganaste-me! Que força ainda, coitado desse lençol azul e branco à frente de Helton, quase é engolido à passagem do ciclone. Está a acabar¿ Acabou! Foi F.C. Porto que passou, com justiça, e só tenho pena de ti, Roberto!

É dia de La Pulga e da infestação culé em Alvalade, que nem precisa de acelerar para chegar à goleada. Os desesperados Polga e Caneira, incapazes de manter a compostura, atrapalham-se e acertam duas bolas na baliza errada. Messi, Henry e Bojan compõem a maior goleada sofrida pelo Sporting em sua casa e Veloso e Liedson apenas atenuam o peso de uma estrondosa lição de futebol. No Pireu, o Benfica deixa os olhos tombar até ao chão aos 38 segundos, avesso a actos de heroísmo, e joga encolhido, arrepiado pelo rufar dos tambores à volta do vulcão. Galletti e Diogo comandam o rolo compressor, e Quique fez eco do perdão que nasceu na boca de João Pinto, em Vigo, anos antes.

Os dragões regressam sorridentes na volta do Expresso do Oriente. Para trás fica a confusa Constantinopla, hoje Istambul, e a sensação de dever cumprido. Apurados e, sobretudo, esquecidos de terem desabado, semanas atrás, em Londres, como um bairro inteiro sincronizado a implodir. Já os rivais terão presentes as deles por mais algumas semanas, tão frescas que estão as humilhações.

Os três grandes cambaleiam feridos pela Europa, como se a distância entre gigantes e portugueses tivesse aumentado uns metros todos os anos desde que Mourinho levantou as duas Taças. E se não fosse por culpa dele... Os adeptos pensam que não. Que o seu é o maior clube do mundo, que Portugal ainda está na linha da frente, que as derrotas são acidentes, percalços, erros ocasionais. Que o campeonato que temos é ainda capaz de sustentar grandes equipas, alimentá-las em talento e consistência.

E, quanto a ti, Roberto, que te votaste ao esquecimento numa liga que só interessa aos turcos, só não te perdoo este último jogo, já que não te posso julgar por não teres vindo para cá. Devias-nos mais um golo magistral, devias-me outros três parágrafos de loucura para concluir este texto, uma despedida em grande para o melhor lateral-esquerdo que o mundo já viu. Não te perdoo!

Quinta-feira, 20 de Novembro de 2008

Da próxima avisem e não vamos!

Era como se gigantescos deuses do futebol tivessem garantido lugares na primeira fila à volta do estádio, agora mesa de pimbolim com jogadores pintados a vermelho portuga e amarelo escrete. Um a um, lado a lado, como budas esculpidos de ar, estão disfarçados para não causarem perturbação no samba das bancadas lá em baixo. Que ninguém perceba que há mais do que talento a definir as jogadas! Não! Outra vez? Reclina-se para trás, recusa-se, coloca o cachecol à volta do pescoço, solta uns papelinhos sobre o estádio em concha, fecha os braços num abraço a si próprio e olha para baixo, à espera do pontapé de saída. Não contem comigo! Só vim cá ver a bola!

O golo de calcanhar de Danny deixa em suspenso o movimento das ancas das mulatas! Mas o «Fabuloso» Fabiano faz com que nos hipnotizem outra vez! Como a havaiana no tablier de um Cinquecento. Mais um! Outra vez Fabiano! Cristiano Ronaldo a tentar rodear Maicon, Robinho a levar atrás o sôfrego Pepe, Deco emparedado entre Anderson e Gilberto Silva, Danny a vaguear longe dos confrontos com Luisão e Tiago Silva. Kaká a transpirar classe a cada passo, Deco muito mais tímido do que depois do apito. Ruborizado, triste, deslocado no seu país de nascimento. É o samba, Deco, lembras-te? As bancadas enrouquecem à meia hora, pouco preparadas para tanta velocidade, para tanto grito. Estão loucos?

Fabiano chama Maicon à área. Toda tua! O lateral embala e no último momento enrola a bola de trivela e engana Quim. No último momento, a bo-la cur-va em câ-ma-ra len-ta. Lá em cima, todos se olham. Da direita para a esquerda, as pupilas dilatam debaixo das barbas esbranquiçadas. O que assobia com descontracção, entre os goles de cerveja, percebe que todos os outros olham para ele. Levanta as mãos espantado e jura por todos os santos. Não fui eu, não tenho nada a ver com isso! Tal como há 38 anos, Maicon tem tanto direito ao seu puta-que-pariu como teve Carlos Alberto na final do Mundial. Que monumento, um golo fantástico! Ei, não é esse aí o melhor do mundo, não...

O hat-trick de Luís Fabiano faz estalar olés nas bancadas, silenciados depois com o golo de Simão. Maniche irrita-se com as pernas de Elano, Elano fica furioso com a baliza de Quim. Queiroz já tinha levado antes as mãos à cabeça, agora vê o guarda-redes voar sem nexo, desamparado, e o míssil do Citizen faz baixar a vergonha como cortina sobre os jogadores.

Cristiano Ronaldo parece ter perdido a aura de melhor do mundo. O resultado é pesado, duro, mas não terá sido sempre possível com tanto talento em campo? Haveria portugueses que não o temiam? Já não há olés, o jogo parece ter acabado. Esperem, vem ainda Adriano, com a vontade de vingar-se de Mourinho em todos os portugueses. Estes 11 servem! Cruzamento. O estádio suspenso. Ninguém respira. Adriano salta nas costas do distraído Bruno Alves e cabeceia. Nas rádios, só se ouve o som ambiente durante uns centésimos. Golo, claro! Só podia ser. 6-2.

Os deuses levantam-se histéricos e correm para os seus lugares. O que foram eles fazer? Sinto-me cansado, esmagado mas também feliz por ter visto magia. Cheio de raiva por nos terem serrado a nós ao meio. Da próxima avisem, sim? É que não vamos. Robinho parece que me ouviu e ainda volta atrás. O árbitro já vai para os balneários, com companheiros de equipa e adversários. O moleque quer deixar o punch line depois de uma exibição fantástica. Chuta uma bola para o público e sorri. Está feliz, claro. Volta as costas, mas ainda olha uma última vez, de sorriso rasgado. Obrigado por nos terem deixado brincar!

Sábado, 15 de Novembro de 2008

Não faltará um sorriso ao futebol?

Sem saber bem como, aprendeu. Leva a bola no peito do pé esquerdo como se fosse algo natural, uma extensão do corpo, flectindo ligeiramente o tronco naquele momento de indecisão, naquele instante em que tem de escolher se a passa e foge ou se foge com ela. Chega à linha branca e remata. Sempre assim, de trivela, porque a perna, desde que nasceu, inclina-se um pouco para dentro.

Olha para mim agora, triste, porque o obrigam a fazer algo que não percebe, a recuar com a bola aos saltinhos, em vez de correr como o miúdo que é para a baliza. Quer fazer o golo da sua vida, mesmo que tenha segundos de validade, apenas até ao próximo tiro extraordinário, depois de driblar onze adversários imaginários e ouvir em surdina os milhares que só vão estar daqui a uns anos nas bancadas.

Ainda não tem seis anos e já lhe colocam regras, limitam-lhe o espaço por onde crescer. Ainda não tem seis anos e fintar já é um exercício, algo que se pratica, quando antes se divertia a enganar o irmão dois anos mais velho, com mudanças de velocidade previsíveis mas eficazes, sempre pelo mesmo lado, como um Paneira visto por meio de um espelho, a conduzir pelo lado contrário do campo. Ainda não tem seis anos.

Não sorriu uma vez, festeja os golos com explosão, libertando-se de todo o constrangimento que carrega às costas. Nem após a melhor finta do mundo ou qualquer coisa parecida, depois de rodar 360 graus sobre si mesmo e ter feito a um arqui-rival um túnel incrível com o calcanhar e a força de vontade, Riquelme ri. Nem um sorriso a levantar o canto dos lábios como uma carta de poker que se espreita apenas, com medo de se denunciar. Nada mais do que dentes cerrados e o olhar em frente, na direcção da vitória.

Boca es nuestro grito de amor
Boca nunca teme luchar,
Boca es entusiasmo y valor,
Boca Juniors... a triunfar...

Penalty de um Postiga armado em Panenka, ao meio da baliza de Calamity James. O rosto fechado de Deco, compenetrado como sempre, abre pela primeira vez em anos. Eleva as mãos acima da cabeça e bate palmas como alguém que acabou de ouvir o Monty Phyton John Cleese dizer I'm afraid not, I'm afraid all the vacancies were filled several weeks ago, em Silly Job Interview. Um, dois, tantos jogos depois, não se lhe vê ponta de um sorriso, o rosto mantém-se concentrado, focado. São os outros que se divertem da leveza com que os adversários caem, peças de dominó de uma tentativa para record do Guinness.

O outro lá ao fundo também não se ri. Tão destro como o outro é canhoto, joga às vezes à defesa, outras ao ataque. Não sorri nem se ri, não grita ou explode em alegria. Corre atrás da bola, com jeito para não magoar quem a tem, interessado a tentar apostar tudo num golpe de sorte: uma bola perdida, a corrida para a área e o remate forte. Aí não falha! Sei o que um tem talento e arreliará treinadores, o outro jogará pouco mas será o melhor amigo dos Paulos Bento deste mundo, preenchendo-lhe as pausas do discurso arras-ta-do.

Vem aí. Pergunto-lhe interessado, vendo-o como se tivesse acabado de sair da sala de aulas ou de uma repartição de finanças. Então, correu bem? Encolhe os ombros e olha para chão. Ganhei...

Quarta-feira, 12 de Novembro de 2008

Não me lixes, Diego!

Por una cabeza 
todas las locuras 
su boca que besa 
borra la tristeza calma la amargura. 
Por una cabeza 
si ella me olvida que importa perderme 
mil veces la vida 
para que vivir...

O violoncelo e o violino dançam o tango de Gardel com o fumo de velas a queimar. Faço o sinal do Dez da testa ao queixo, persigno-me com reverência, terminando com os lábios sobre polegar e indicador. Caminho em silêncio, com medo de irritar Deus com o ranger do soalho da sua própria casa. O luto, reparo, é feito em tons de céu e branco, de cabeças baixas, mas sem lágrimas, como se a canção de Evita Perón tivesse laqueado os canais lacrimais de todos os rostos no meu rastro.

Encontro o confessor. Veste o 11 de Valdano e caminha elegante e de peito feito, com livros debaixo do braço, pronto a absorver as dores do mundo e resolvê-las como uma sentença. Hoje, odeio-o. Penitenciate! Gritou-me, irado, de cabelos em pé e chispando faíscas dos olhos raiados de sangue, quando confessei o pecado. Obrigou-me a ver uma compilação para maiores de 18 de Gentile, durante duas horas por dia até abstrair-me dos maus pensamentos, e ameaçou chamar Passarella para levar-me ao Purgatório ou Batista para acompanhar-me ao Inferno, se eu não conseguisse encontrar a salvação antes de morrer.

Já perdi a noção do que me trouxe até aqui. Geralmente, fico assim à terceira falta de Gentile, a quem, para ser protagonista de filme de horror, só falta a motosserra e a máscara de Jason Voorhees em Friday the 13th ou o preto-e-branco pudico de Tarantino quando Uma Thurman começa a rachar asiáticos ao meio em Kill Bill. Sei que estava como agora, preso às declarações de Messi sobre si próprio, sobre o que dizem dele, sobretudo Maradona. Shiuuuuu! Ele ouve tudo. Messi diz que não é e-go-ís-ta, Ma-ra-do-na diz que sim. Ele, Ma-ra-do-na, diz que sim.

Aquele jeito de levar a bola, com os três últimos dedos do pé esquerdo, o regate antes do remate ou do passe mortal, a mesma tentação de procurar a jogada do ano em cada posse de bola. Os cinco adversários do Pelusa frente à Inglaterra, os cinco opositores de Messi no encontro com o Getafe. La mano de Dios nessa desfeita a Shilton, a mão do acólito perante o Español, que enrouqueceu o jornalista no relato para a televisão nacional. Para mí es Diego, es el mismo tipo! Goooooooooool del Barça! Reencarnó. Yo no credo en esto, pero reencarnó! Aquele futebol de rua, cheio de poeira e meias cor de tijolo, a simplicidade com que as vírgulas surgem pelo campo, pequenas pausas num caminho aos ésses até à consagração final. 

Sim, D10S é perfeito. Há os livres que ninguém conseguiu decalcar. A visão periférica, aquele passe para Cannigia que destroçou o Brasil ou o de quatro anos antes para Burruchaga, o do título mundial. Mas aquele golo na meia-final com a Bélgica, feito por si e apenas por si, com Olarticoechea e Valdano a cair na área sobre a esquerda e Burruchaga a chegar de trás, pela direita; num acesso de má vontade herética não poderia ser considerado egoísmo? Não, porque marcou. Resolveu, decidiu, foi genial. E Messi não? Incito o miúdo à revolta, quase dando murros ao portátil. Não tens de ser igual. Nem os gémeos são iguais. Reage, pá. Diz-lhe: Não me lixes, Diego. Sou eu, o Messi, lembras-te?

As paredes desabaram e o mundo desdobrou-se como num mau filme de ficção. Vi-me aqui sem perceber bem como, passaram-me à frente de uma longa fila de brasileiros com camisolas a idolatrar Pelé e obrigaram-me a esperar horas, numa sala com música ambiente.

Vamos, vamos Argentina, 
vamos, vamos a ganar, 
que esta barra quilombera, 
no te deja, no te deja 
de alentar.

Chegou Valdano e obrigou-me a repetir para a eternidade: Deus só há um!

(by Luís Mateus)

Sexta-feira, 7 de Novembro de 2008

O futebol nos tempos de cólera

Um lenço imaginário tapa-lhe o cabelo, uma pala invisível o olho esquerdo. Com a convicção de um pirata que afunda a pá no sítio onde quer cavar, Pablo Aimar, um dos mais talentosos dos sete mares, desenha a cruz que marca o tesouro.

Fifteen men on a dead mans chest
Yo ho ho and a bottle of rum!
Drink and the devil had done for the rest
Yo ho ho and a bottle of rum!

A letra X. Ali. Seguro de si, carrega o baú de dobrões e afunda-o para o recuperar depois. Mão esquerda à frente da direita, a apontar o monóculo no horizonte. As pernas cruzam-se velozes atrás da bola inchada com o mapa do tesouro lá dentro, como um passo de esgrima em cima da prancha de um galeão. Para tí, Suazo, todo mi oro!

O velho Old Trafford explode. Glory, glory, ManUnited! Glory, glory, ManUnited! Sim, é golo de Cristiano, aquele que os red devils cantam a plenos pulmões que não tem igual. É apenas mais um de muitos, rompido o tridente amoroso com Nereida e o Real, ninguém sabe necessariamente se por esta ordem. Mas a consciência de algo ainda mais especial abate-se sobre o estádio como um martelo sobre a bigorna. Culpa de Berbatov, o búlgaro que pisa a grande área com um cavalete debaixo do braço, pronto a desenhar mais uma obra de arte. James Collins ainda gatinha a esta hora para a lateral. O defesa galês tenta encontrar, de cócoras - como Vítor Baptista desesperava pelo brinco - os rins que perdeu. Junto à linha final, a viragem de 180 graus sobre a bola, completada com o pé direito e com a assistência para o português detonam a festa.

Salto em uníssono, tão sincronizado como nadadoras de molas no nariz quando vêm à superfície. O banco da Naval desespera. Davide já tinha saído, depois de ter perdido no ar a luta com o cotovelo de Bruno Alves, e espera-o agulha e linha, quatro pontos cosidos na cabeça e talvez uma cicatriz para mostrar aos futuros netos. Agora, o central entra novamente para lá do limite, duro, dentro de um estilo perigoso mesmo para avançados de barba rija. Pedro Henriques perdoa-lhe outra vez.

A norte, Derlei anula com uma patada um túnel de Sílvio e insulta-o no chão, culpando-o pelos males do mundo e pela insolência. Amarelo. Sob influência de um vírus estranho ou num inaceitável acesso de loucura, salta segundos depois com o cotovelo nas costas de um adversário e atira a bola para fora. Vermelho. Em Guimarães, com o Diabo de Gaia, irradiado por um ano das bancadas, a marcar surpreendente presença, as claques esgrimem argumentos com cadeiras e insultos. Uma falha Aimar por pouco. E Reyes também acabará expulso depois de vulgarizado por Andrezinho. Cego pelo rival, fere-o no flanco e sai mais cedo.

Córdoba salva Mourinho sobre o gongo em Reggio Calabria. Viva la Cumbia!. O colombiano evitou a terceira igualdade em quatro jogos, já que depois viria a de Chipre. A pressão teima em não esvaziar para o lado do Special One, talvez numa conta ainda um pouco mais alta do que a que pretendia para os seus ombros. Fez a equipa para Lampard, mas não tem o inglês para levar a bola mais vezes perto de Ibrahimovic, e mostra-se incapaz de estabilizar a equipa atrás como tanto gosta, por força de muitas lesões. Inacreditáveis os três erros defensivos em Larnaca, sobretudo numa equipa italiana de topo como a nerazzurra. Já a Juventus e De Piero vivem um segundo fôlego em Itália e na Champions. Aos 33 anos, o avançado encontrou o elixir da eterna juventude. E o Real um pesadelo.

A semana em Portugal acaba com vitórias de Sporting e F.C. Porto, e com imagens de que, afinal, está tudo bem. Ao Dragão voltou a sorte que Jesualdo perseguia, em Alvalade acabaram os casos que nunca existiram e faziam rir os jogadores. A verdade é que, felizmente, todos temos a capacidade de nos rir uns dos outros.

(by Luís Mateus)

Sexta-feira, 31 de Outubro de 2008

Jo sóc culé, e vocês?

Quantas vezes ouvimos isto ao longo da nossa existência como um elástico gigante que nos puxa de novo à realidade, precisamente quando estamos no melhor do nosso sonho, em frente à baliza, sem guarda-redes, no último minuto do jogo que vale o título? Quantas vezes vemos um antigo avançado no banco, com a braçadeira de treinador, festejando vitórias atrás de vitórias, empunhando galhardetes adversários na ponta da lança como D. Quixote de la Mancha, depois de derrubar moinhos de vento?

Houve Cruijff. O holandês que agia enquanto os outros ainda pensavam, como recordou várias vezes Valdano, montou um Dream Team no Camp Nou, com Guardiola, Bakero, Beguiristáin, Goikoetxea, Hagi, Koeman, Laudrup, Romário e Stoichkov. Nunca um culé
gritou tão alto més que un club como então: tetracampeão no início da década de 90, vencedor da Taça UEFA em 89 e da Taça dos Campeões e Supertaça Europeia em 92, num total de 11 títulos que viraram os holofotes de novo para a Catalunha. Já com Figo, as duas últimas épocas de fracasso, no entanto, encerraram o capítulo do treinador blaugrana mais bem sucedido de sempre. Como se a história tivesse sido escrita por uma caneta de tinta mágica, que desaparece.

Ei, não é bem assim... É verdade. Ninguém em Barcelona se esqueceu do agora conselheiro Cruijff. Anos depois, aquela era ficou marcada pelos resultados, mas também por grandes jogos, exibições que espalharam magia pelas bancadas, que incendiaram um movimento, como se Gaudí tivesse descido do Parc Güell e reencarnado num estrangeiro visionário que elevava o futebol a um poema emocionado. Esse Barcelona, o Barcelona de Cruijjf, era desfraldado nas bandeiras representativas da Generalitat da Catalunya, no Parlamento, símbolo do sentimento da unidade de uma região.

Chegaram Bobby Robson e o então tradutor Mourinho, Van Gaal, Serra Ferrer e outra vez Van Gaal, mantendo uma ligação estreita à Holanda, depois das interrupções britânicas e espanholas. Saviola, Kluivert, Overmars, Cocu, Davids, Sorín, De Boer, Riquelme, Cocu, Geovanni, Rochemback, Petit, Zenden, Simão, Rivaldo, Alfonso, Amunike, Litmanen, Anderson, Dugarry, Giovanni, Couto, Vítor Baía, De la Peña, Popescu, Blanc e Pizzi [Ufa!] chegaram e partiram com maior ou menor sucesso. Rijkaard ergueu a mão em sinal de stop ao descalabro, chamou Deco, encontrou o melhor Ronaldinho, um Etoo explosivo e um Messi a despontar, e aguentou a equipa no topo até ser campeão continental. Em 2006, gritou-se a plenos pulmões:

Blau-grana al vent
un crit valent
tenim un nom
el sap tothom
Barça, Barça, Baaarça.

Mas caiu logo depois.

Com Guardiola, mas sem Ronaldinho, Deco e Rijkaard, a equipa cresce hoje sobre a cantera. Sobre Valdés, Puyol, Piqué, Xavi, Iniesta e Bojan, e bebe deles a sede de jogar à bola. Etoo rejuvenesceu e voltou a ser mortífero, há o genial Messi para tornar rectas as curvas e Henry para alargar o jogo a todos os quadrados do tapete. Hleb e Daniel Alves juntaram-se ao carrossel catalão - que só tem paralelo no Arsenal ou no Zenit -, que entusiasma e cilindra quem se lhe atravessa à frente. As jogadas saem como se fossem reflexo de uma memória muscular, de algo que se imita por se ver uma vez a fazer, como a aliança que coçamos no dedo sem estar lá há meses. A verdade é que é mais do que futebol, é uma cultura a espinha dorsal do Barça. Olhamos para a manta de retalhos galáctica do Real e sorrimos. Jo sóc culé! E vós, os que pensam nos resultados, deveriam ser vinte anos treinados por Benítez, com sucesso idêntico ao de Luís Campos!


(by Luís Mateus)

Perfil

Lisboa, Portugal
Subdirector do IOL e do Maisfutebol
Tempos livres: webdesign e criação de gatos Bosques da Noruega

Breve currículo:

2009 - (...) - IOL - Subdirector
2006 - 2008 - Maisfutebol - Editor
2005 - jornal Metro - Chefe de Redacção
2004 - 2005 - jornal Metro - Editor
2000 - 2004 - Maisfutebol - jornalista
1999-2000 - Terraportugal.com - Coordenador Editorial
1996-1999 - A Bola - jornalista

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