sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Jo sóc culé, e vocês?

Quantas vezes ouvimos isto ao longo da nossa existência como um elástico gigante que nos puxa de novo à realidade, precisamente quando estamos no melhor do nosso sonho, em frente à baliza, sem guarda-redes, no último minuto do jogo que vale o título? Quantas vezes vemos um antigo avançado no banco, com a braçadeira de treinador, festejando vitórias atrás de vitórias, empunhando galhardetes adversários na ponta da lança como D. Quixote de la Mancha, depois de derrubar moinhos de vento?

Houve Cruijff. O holandês que agia enquanto os outros ainda pensavam, como recordou várias vezes Valdano, montou um Dream Team no Camp Nou, com Guardiola, Bakero, Beguiristáin, Goikoetxea, Hagi, Koeman, Laudrup, Romário e Stoichkov. Nunca um culé
gritou tão alto més que un club como então: tetracampeão no início da década de 90, vencedor da Taça UEFA em 89 e da Taça dos Campeões e Supertaça Europeia em 92, num total de 11 títulos que viraram os holofotes de novo para a Catalunha. Já com Figo, as duas últimas épocas de fracasso, no entanto, encerraram o capítulo do treinador blaugrana mais bem sucedido de sempre. Como se a história tivesse sido escrita por uma caneta de tinta mágica, que desaparece.

Ei, não é bem assim... É verdade. Ninguém em Barcelona se esqueceu do agora conselheiro Cruijff. Anos depois, aquela era ficou marcada pelos resultados, mas também por grandes jogos, exibições que espalharam magia pelas bancadas, que incendiaram um movimento, como se Gaudí tivesse descido do Parc Güell e reencarnado num estrangeiro visionário que elevava o futebol a um poema emocionado. Esse Barcelona, o Barcelona de Cruijjf, era desfraldado nas bandeiras representativas da Generalitat da Catalunya, no Parlamento, símbolo do sentimento da unidade de uma região.

Chegaram Bobby Robson e o então tradutor Mourinho, Van Gaal, Serra Ferrer e outra vez Van Gaal, mantendo uma ligação estreita à Holanda, depois das interrupções britânicas e espanholas. Saviola, Kluivert, Overmars, Cocu, Davids, Sorín, De Boer, Riquelme, Cocu, Geovanni, Rochemback, Petit, Zenden, Simão, Rivaldo, Alfonso, Amunike, Litmanen, Anderson, Dugarry, Giovanni, Couto, Vítor Baía, De la Peña, Popescu, Blanc e Pizzi [Ufa!] chegaram e partiram com maior ou menor sucesso. Rijkaard ergueu a mão em sinal de stop ao descalabro, chamou Deco, encontrou o melhor Ronaldinho, um Etoo explosivo e um Messi a despontar, e aguentou a equipa no topo até ser campeão continental. Em 2006, gritou-se a plenos pulmões:

Blau-grana al vent
un crit valent
tenim un nom
el sap tothom
Barça, Barça, Baaarça.

Mas caiu logo depois.

Com Guardiola, mas sem Ronaldinho, Deco e Rijkaard, a equipa cresce hoje sobre a cantera. Sobre Valdés, Puyol, Piqué, Xavi, Iniesta e Bojan, e bebe deles a sede de jogar à bola. Etoo rejuvenesceu e voltou a ser mortífero, há o genial Messi para tornar rectas as curvas e Henry para alargar o jogo a todos os quadrados do tapete. Hleb e Daniel Alves juntaram-se ao carrossel catalão - que só tem paralelo no Arsenal ou no Zenit -, que entusiasma e cilindra quem se lhe atravessa à frente. As jogadas saem como se fossem reflexo de uma memória muscular, de algo que se imita por se ver uma vez a fazer, como a aliança que coçamos no dedo sem estar lá há meses. A verdade é que é mais do que futebol, é uma cultura a espinha dorsal do Barça. Olhamos para a manta de retalhos galáctica do Real e sorrimos. Jo sóc culé! E vós, os que pensam nos resultados, deveriam ser vinte anos treinados por Benítez, com sucesso idêntico ao de Luís Campos!


(by Luís Mateus)

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Há onze anos apostaria todo o dinheiro em Deco?

Podia ter chegado num barco atolado de imigrantes ilegais, famintos e desconfiados, que também ninguém teria dado por si. O rótulo dispensava a presença de holofotes, de jornalistas empilhados e comprimidos como sucata em pirâmide, com câmaras no topo. Era ele e outro, também brasileiro, com nomes bissílabos. Vinham para a Luz, mas nunca lá chegariam. O primeiro contacto com um novo futebol, mais agressivo e rápido, e sobretudo muito mais exigente, aconteceria poucos quilómetros a norte, no «satélite».

Mais do que a desconfiança que a sonoridade dos nomes Deco e Caju criava na cabeça das gentes, o próprio clube de onde vinham não era de fiar. Um Corinthians sim, mas da paradisíaca Maceió, em Alagoas, fundado apenas seis anos antes, que não competia, apenas geria os talentos que aí apareciam antes de os redireccionar. Ninguém espera que esse miúdo franzino de 20 anos com aspirações a ser o número 10 do Benfica, e que pisa pela primeira vez a Portela, seja um dia grande figura do campeonato, da Selecção e do futebol mundial. Quem seria capaz de apostar todo o dinheiro em alguém assim?

Primeiro Alverca, com Maniche, Hugo Leal, Diogo, Ramires e Caju. Depois, o Salgueiros, apenas como ponte para algo de outra dimensão. Finalmente, o F.C. Porto - onde Caju o vai reencontrar por um ano, antes de voltar a Alverca -, os títulos, a explosão, a dupla nacionalidade e a chamada de Scolari. Tudo em Deco parecia finalmente fazer sentido, com a bola sempre colada ao pé direito, fazendo vírgulas entre frases curtas, saindo a seguir curvada para dentro, com força e jeito, envolvida num passe ou num remate fatal. Depois, havia mais qualquer coisa. Não se contentava em ser estrela, arregaçava as mangas e também ele era operário.

A verdade é que pouco tempo depois de ter chegado, ainda na Honra, já havia quem sussurrasse O melhor é o Deco! Sabia-se que havia futebol ali, que podia crescer até ser um bom jogador do primeiro escalão. Mais do que isso era um tiro no escuro, um prognóstico atirado para o ar sem algo que o sustentasse. No entanto, essa capacidade de ambientar-se rápido ao novo mundo, como se fosse a sua casa desde sempre, de ir perdendo o sotaque ganho em São Bernardo do Campo, nos arredores da gigante São Paulo, e de ser capaz de fazer parte de um futebol diferente daquele que aprendeu a ver perto de si deram-lhe a dimensão que poucos atingiram. E, afinal, houve desde o início tanto contra si...

Aos 31 anos, e depois do fim precipitado num Barcelona a querer forçar novo ciclo, tem ainda o Chelsea e a Selecção para uma boa recta final. Requintado, parece determinado a ficar por mais algum tempo na memória de todos os que foram adeptos incondicionais desse futebol em que a inteligência e o talento andaram sempre interligados. Por ser como é, por poder ser dez e oito, ou médio direito se necessário, na mesma equipa e com o mesmo valor, o jogo promete ainda ser generoso com ele por mais tempo.

A sul, em Alvalade, já há muito lhe arranjaram um sucessor: João Moutinho. Fisiologicamente parecidos, com idêntica capacidade de entrega no ataque e na defesa, e muito inteligentes em campo. No entanto, com diferentes capacidades de improviso e, infelizmente, de talento. O capitão dos leões terá pensado a certa altura que é Portugal que lhe limita a evolução. Que em Inglaterra ou em qualquer outra liga de nível superior ganhará outra dimensão. A verdade é que lhe falta a diferença para Deco: ser decisivo. O 28 de Alvalade não chegou ao fim da linha, está longe de o ter feito aos 22 anos, mas será que vai crescer muito mais? Ou será sempre este grande futebolista, jogando sempre no limite máximo que os deuses lhe concederam. Afinal, eles não ficaram conhecidos por dividir o talento em partes iguais.

(by Luís Mateus)

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Ibracadabra, Van Basten está de volta

Todas as espécies mudaram ao longo da sua vida na Terra. Adaptaram-se, transformaram-se, mas só a humanidade persegue - algo que não pode ser dissociado da capacidade para pensar e sonhar - a perfeição. No entanto, não é algo a que todos aspiramos, mas sim um conceito abstracto que um ou outro em nome de todos, uma espécie de consciência colectiva, procura. Porque no outro prato ferrugento da balança existe algo que a humanidade não consegue expulsar do seu código genético, a tendência para se acomodar. Poderiam Leonardo da Vinci e os homens que nos fazem esperar horas nas Finanças ser filhos do mesmo pai? Por que não?

O futebol é como em tantas outras coisas o espelho da sociedade. Um mau jogador de campo tornou-se guarda-redes na infância porque não o deixavam jogar noutro lado; um avançado forte sem faro pelo golo virou defesa central; um destro exímio viu o pé esquerdo cegar irremediavelmente; e um 9 alto e possante apostou tudo no jogo de cabeça. A trivela não é mais do que o camaleão a confundir-se com o ramo da árvore; o pulmão de um «trinco» o desespero a lutar pelo lugar com quem não precisa de correr tanto; e a dureza a máscara perfeita para a impotência para o desarme.

Quando chegou aos 1,92 metros e olhou para baixo, ou talvez ainda antes entre miúdos da mesma idade, podia ter feito o que quase todos os outros fazem. Tornar-se alvo dos cruzamentos do futebol sem rodeios dos suecos, chegando mais alto para marcar golos atrás de golos. Mas talvez a sua costela não-nórdica ou simplesmente o olhar diferente sobre o jogo fizeram com que crescesse também em ambição. Drible curto, remate fortíssimo com ambos os pés e uma técnica soberba foram acrescentados aos dotes físicos que lhe permitem aguentar cargas, lutar corpo a corpo e atirar com acerto.

Comparamo-lo, mesmo que não publicamente, a Van Basten, porque sempre tivemos a necessidade de colar rótulos a embalagens e a pessoas, e porque existem de facto alelos comuns, estranhamente comuns, entre o descendente de bósnios nascido em Malmo e o Melhor do Mundo para a FIFA em 1992, natural de Utrecht. Marco mais elegante, perfeito em todos os movimentos, frio e sobretudo com uma sede de golos anormal. Ibra mais explosivo, capaz de sair do nada e decidir um jogo, reactivo ao ambiente e com mais gosto pelo risco. Sim, contar-se-ão os hat-tricks do nórdico ao longo da carreira como algo raro, enquanto o holandês fez bastantes, muitos dentro de um colete-de-forças chamado calcio, antes de uma lesão o afastar precocemente dos relvados.

Para Ibrahimovic, seria bom que os golos fossem contabilizados de maneira diferente. Que um jogo de futebol fosse também decidido por notas artísticas. Afinal, por que tem o golo de Carlos Alberto na final de 1970 de valer a mesma coisa que o penalty de Brehme duas décadas depois? Ou, estupidamente, os dois que El Pelusa marcou à Inglaterra no México pesem precisamente o mesmo no resultado que vingou as Malvinas... Aquele monumento na Luz perante o Benfica, o slalom gigante ainda no Ajax, o lob de calcanhar sobre Buffon no Euro-2004, de novo o calcanhar-pontapé de taekwondo na Serie A esta época mostram um gosto refinado pela excelência, falhando por vezes movimentos bem mais simples. Para o bem ou para o mal, o sueco sente-se um super-herói de honrados poderes, já pouco interessado nas coisas mundanas.

Ibrahimovic não é tão perfeito quanto Van Basten. Provavelmente, nunca estará mais perto de o ser do que hoje. Mas, se alguém, um dia, conseguir imitar aquele pontapé que chicoteou Dasaev na final do Euro cor-de-laranja será o sueco. Até podemos estar distraídos a olhar para o outro lado antes de ouvirmos alguém gritar, em português, italiano ou mandarim, depois do grito arrastado e histérico de golo:Ibracadabra!


(by
Luís Mateus)

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Morrer (em campo) por uma bandeira

«Todos os dias vêm de vespa para os treinos. Aqui não há luxos», explica o gordo Christos, taxista de limusina de agência de turismo, já com muitas revisões e peças substituídas, suspensões irritadas, estofos de pele furados e cheiro intenso a tabaco. Condução própria de rali, com o jipe gigante a fugir de traseira e de nariz sobre o trilho do autocarro que persegue até ao local de mais um treino. Mãos musicais sobre a buzina para protestar com o sinal vermelho, no meio do deserto.

1998, carros das Nações Unidas aceleram pelas vias principais. Turistas empenham libras em pubsingleses com mesas de pool e barulho ensurdecedor, depois de irem a banhos nas praias luminosas de Larnaca. Os jornais noticiam em grande destaque o jovem com tendências suicidas, baleado por ter tentado retirar a bandeira turca da metade não-grega de Nicosia. Os hotéis pedem o racionamento de água, lembrando-nos dos largos depósitos em quase todos os telhados. Traduzidas de cinco em cinco quilómetros em vedações de arame farpado, surge a explicação para aquelas placas de aviso, incompreensíveis para os visitantes: Danger. Mines. Do not cross. Do lado turco, Famagusta, antiga região turística, não é mais que uma cidade-fantasma.

Uma criança insinua-se na água, acreditando na linguagem universal de uma bola de praia. A medo, insiste, como se não fosse nada com ele. Depois, liberta-se, sente finalmente a idade que tem e a vontade de ser miúdo perante um estranho. Os pais olham primeiro de lado, desconfiados, e, depois de uns sorrisos e a conversa informal, sai o convite para um jantar, como se tivessem encontrado um novo amigo eterno. Uma jovem recepcionista de hotel, de sorriso a escapar-se num dos cantos da boca até ser de novo amarrado e os olhos voltarem a encontrar o chão. O menino faz-tudo, paquete e mascote, rei do átrio e da gorjeta, e inconfidente leal: «O marido foi morto pelos turcos! É uma tristeza...»

Equipamentos com números desenhados a marcador quando a lavandaria lhes desbotou o rastro. Jogadores, estrelas do seu sítio a andar a pé ou de motorizada de baixa cilindrada, a caminho do relvado, um espaço aberto para quem queira ver, sem bancadas, com barras de ferro como em campos de distrital. Treino do campeão Anorthosis, agora de Larnaca, depois da invasão da cidade-base, Famagusta, pelo exército turco. Gritam-se palavras cheias em grego, como se tivessem o peso dos insultos, e aplaude-se, vibra-se o que se pode, faz-se o barulho de uma multidão. Os jogadores param para acenar, cumprimentam, reagem.

Dez anos depois, importados dezenas de portugueses, brasileiros e de tantas outras nacionalidades, os cipriotas conseguiram elevar um pouco o estatuto e a qualidade do campeonato. A selecção ganhou alguma consistência. Mesmo que o estádio do campeão Anorthosis leve menos de dez mil pessoas, que o tamanho e divisão da Ilha de Cobre (Kýpros é o nome original) e o valor de quase todas as equipas sejam limitativos, e que o futebol seja apenas um anexo num país com muitas outras coisas com que se preocupar, numa única década quase tudo mudou.

Ninguém esperava o Anorthosis na Champions, poucos acreditavam que com duas jornadas fosse líder num grupo com Chelsea, Werder Bremen e Panathinaikos. Como se não houvesse amanhã, os cipriotas querem aproveitar o grande momento das carreiras, talvez mesmo das vidas. Habituados a sofrer, a que os olhem de lado, a que cada dia seja uma batalha. Ainda com o amadorismo na memória de todos, nunca se sabe o que trará o amanhã. A lutar pela sua identidade, longe de Atenas e bem perto de Ankara, agora sim disposta a negociar a unificação para não hipotecar a junção à União Europeia, o futebol faz parte da mensagem. «Mataram um miúdo por causa de uma bandeira, sem que o tentassem demover de outra forma. Kýpros é isto», lamenta Christos. A cinza cai-lhe sobre as calças, sem que a sacuda. Larnaca, Chipre. Há dez anos.

(by Luís Mateus)

Perfil

Lisboa, Portugal
Subdirector do IOL e do Maisfutebol
Tempos livres: webdesign e criação de gatos Bosques da Noruega

Breve currículo:

2009 - (...) - IOL - Subdirector
2006 - 2008 - Maisfutebol - Editor
2005 - jornal Metro - Chefe de Redacção
2004 - 2005 - jornal Metro - Editor
2000 - 2004 - Maisfutebol - jornalista
1999-2000 - Terraportugal.com - Coordenador Editorial
1996-1999 - A Bola - jornalista

Fale comigo no

Fale comigo no
Uma nova forma de comunicar

Twitter / luismateus

Etiquetas