sexta-feira, 30 de maio de 2008

Addio, catenaccio!

Soutiens ardem ainda para lá das linhas de cal. Cabelos compridos e tranças misturam-se com ganga e olhos semicerrados, cabeleiras afro dispersam-se entre barbas, cabedal e tatuagens. O mundo encheu-se de cores e cheiros a novo, protestos e roturas, e ensurdeceu com gritos pela liberdade. Os Beatles e Elvis apareceram e evaporaram-se, cantou-se Pink Floyd, Zeppelin e Stones, dançou-se break e acid. A música tornou-se industrial, endurecida com a juventude. Já em campo, uma squadra azzurra ainda em tons de cinzento enche os tiffosi de orgulho. Os heróis olham em frente e escutam os sussurros de Rigoletto, que lhes dá leveza à alma e ritmo para a vitória: La donna è mobile, qual piuma al vento, muta d accento, e di pensiero...

Um por um estão ancorados à terra, presos a uma amarra que só os deixa gravitar alguns metros. Aquele elástico gigante invisível só se solta uma ou duas vezes. Mais que isso e tem de ser substituído para não haver acidentes. Plac! Do lado de lá caem na ratoeira. O erro tem de ser aproveitado. Plac, Plac! Som de metal a bater, como num avião, ainda com o alarme dos cintos aceso, assim que se aterra em segurança na pista. Um por um disparam em legião, prontos a cumprir por fim o objectivo, recolher a bagagem e voltar para casa. Goooool! Uma voz tão desgastada e cheia de espinhos como a de Paolo Conte acusa em eco das bancadas: «Catenaccio, catenaccio!» O velho Herrera dá três voltas no túmulo, sem perceber o que aconteceu desta vez.

Incrível esse calcio em que nada é complicado e tudo está longe de ser simples. Esse jogo único, que vive para si e só pensa em si, consciente de que mais importante do que marcar é não sofrer. O calciatori é mais qualquer coisa do que todos os outros. Só guarda-redes tão sobre-humanos como Buffon estão na baliza. Os centrais são banhados em betão antes de entrar em campo. Desdobram-se laterais em extremos porque há que usar as alas. O «10» não existe por si, reclama-se que marque golos como Baggio ou ajude a evitá-los na pele de Pirlo. O ponta-de-lança, capocannioniere, chega ao fim da carreira com mãos e tronco a tremer, obrigado a manter-se concentrado de 90 minutos a 90 minutos, não fosse falhar a única oportunidade criada. A Itália, raramente a melhor equipa em campo, ganha no relvado, mas perde nas bancadas.

O velho Helenio não podia estar à espera. O ferrolho que fechou o Inter tornou-se sistema italiano durante décadas. «Uma grande exibição dura um dia, um bom resultado para sempre», dizia o argentino, quando o massacravam com o cinismo do seu jogo. O relvado dividia-se em tabuleiro de xadrez, e as peças brancas atraíam as pretas para armadilhas com alçapão. Grandes equipas derrubadas protestavam, as falhas alimentavam o ódio. Quem é que gosta de ser enganado? No entanto, com o tempo, quase todos querem ser italianos. Portugal tornou-se cínico nos anos 80 e foi derrubado pelo catenaccio grego em 2004. Surpreendentemente, até o Brasil escavou trincheiras no seu meio-campo para ser campeão do mundo em 1994.

Na altura do Europeu português já nem a squadra azzurra acredita no passado. Algo começara a mudar: a mentalidade, sempre rastro da história, quase meio século depois. Embora com princípios antigos, a Itália já não espera pelos outros. As suas equipas universalizaram-se depois de Bosman, tornaram-se livre pensantes. Inter, Roma e Milan não estão espartilhados pelos elásticos, apesar de ainda constrangidos por anos a fio de obrigações. O calcio já não é bem calcio. Talvez seja futebol, com regras iguais para todos. Que prazer dá ver Pirlo ser maior que todos, estratega altruísta e humilde, a conduzir uma Itália talentosa, em ataque contínuo. Deixem lá Herrera descansar em paz!

(by Luís Mateus)

domingo, 25 de maio de 2008

Os genes do jogo

Algures, nos meus 23 pares de cromossomas, está escrito que, por muito que quisesse, nunca iria ser grande futebolista. Podia tentar, treinar, decorar truques, formatar uma mente gélida, inalterável, que nunca seria assim tão bom. Algures, no meu código genético, estava determinado, tão certo como o destino para quem nele acredita, que não seria aplaudido de pé depois de um golo fantástico. Parte de mim, uma parte ridícula de mim, ainda crê, no entanto, que se tivesse aberto a porta B em vez da A, se tivesse virado à esquerda em lugar da direita, se não tivesse passado debaixo de uma escada ou quase pisado um gato preto, se tivesse acertado aquele livre ali para os lados de Sintra a minha vida teria sido diferente.

Há algo de hereditário no jogo. Tem de haver. Rui herdou a arte de José Águas, Carlo recebeu a inspiração de Fabio Cudicini. Sandro foi tão Mazzola como o pai Valentino, que ano após ano recebeu coroas de flores, em Turim, por ter deixado o futebol e a vida em Superga. Jean e Youri elevaram bem alto, em França, o nome Djorkaeff. Paolo Maldini somou jogos e troféus a fio, fazendo inveja ao velho Cesare, que também era casmurro de mais para deixar a relva e foi sentar-se para o banco. Finn Laudrup dividiu o seu talento por Michael e Brian, os vikings com mais jeito para a bola. Os Frank Lampard, progenitor e descendente homónimos, cresceram no West Ham e jogaram com os três leões ao peito, um feito para poucos.

O estranho é que algo sempre corre mal quando há sobrecarga de talento. Como se os genes só suportassem uma determinada quantidade de génio na viagem. O excedente fica para trás, irrecuperável. Um gene não tem direito a usufruir do excesso de bagagem. Edinho foi defender o que Pelé criava com fartura, o golo, mas não chegou longe. Jordi nunca foi Cruijff como Johann, que carregou o testemunho entre o «Rei» e Maradona. Da vida atribulada de El Pibe é conhecido um jovem ilegítimo, nascido em Itália, à procura de um espaço num calcio que lhe afunda ainda mais a cruz do nome nas costas.

Mas o futebol também nos mostra ter regras próprias. Quantas vezes demos por nós a contar alelos comuns entre Hleb e Karagounis, Nuno Gomes e Baros, Aquilani e Giannini, Pelé e Robinho, Messi e Maradona, e Agüero e Romário? Sempre que nos esquecemos daquelas réguas de medir talento, que nos obrigam a quantificar tudo o que mexe, podemos olhar sem obsessão pelo rigor matemático: aquelas corridas irregulares, as pernas afastadas e os braços contraídos em pose de Incrível Hulk do bielorrusso e do grego; o futebol mais participativo do português e do checo, hoje um pouco apagados depois de um bom início de milénio; a visão de dois romanos com uma criatividade maior que o calcio; a capacidade de desenhar oitos elegantes na área por parte dos dois ex-Santos; aquele jeito maradoniano de carregar a bola no pé esquerdo do miúdo argentino, plagiador perfeito do ídolo; e a pose erecta, a decisão em espaços reduzidos e a alta velocidade do «baixinho» e de El Kun. A bola, denominador comum, gravada em cada gene.

Um vendaval abatia-se sobre a humanidade. Não sentia as pernas, rasgadas pela terra, trituradas pelas dos outros. Estava sozinho. Não se via a cal das marcações, a terra empapara, fizera lagos sem pontes. As traves enferrujadas, que escondiam ninhos de vespas em dias de sol, ameaçavam desabar. Os pais gritavam pelos filhos, como se apostassem num combate de galos. O meu, que só se lembrava do jogo quando queria gozar com alguém, ficara em casa. Alguém tirava notas. Quis fazer a jogada da minha vida. Tirei dois da frente, ignorei todas as regras de pólo aquático, e senti um puxão. Levantei-me à nona contagem e acreditei que era Maradona pela última vez. Folha-seca. A barreira de putos não era obstáculo para um deus argentino. O Shilton deles estava batido. Levantei as mãos, mas a bola traiu-me, depois de raspar no poste. Perdoa-me, Diez!

(by Luís Mateus)

quinta-feira, 22 de maio de 2008

O futebol a preto e branco

Passos lentos, mas decididos. As duas mãos ajeitam a bola e, antes que o corpo se distenda novamente, ela já não está lá. O adepto mais adepto abre a boca de espanto, esmaga o cachecol com as mãos inteiras e aponta, depois, sem réstia de educação, para o truque de ilusionismo. Aquela tacada de minigolfe com a perna direita vinha devolvida, feliz, logo depois. As simple as that. O guarda-redes desiste, baixa os braços, recusando o papel de bobo da corte porque pensa, erradamente, que o destino lhe trará outro mais digno. Nas bancadas, todos se colocam em bicos de pé sobre os blocos de partida. On your marks, get set... Silêncio antes da explosão. Só aquele momento, sem algo mais agarrado, era história.

O zapping faz-me parar na VH1, no último minuto de uma das canções mais incongruentes de sempre. Depois de plásticas em série, uma das estrelas pop mais cintilantes daquela era tenta mostrar-me que doesn’t matter if you’re black or white. Enquanto tento convencer o meu pé direito de que não é música que mereça tal entusiasmo, transporto para aquele rectângulo de cores quentes jogadores e treinadores que conheço. Vamos pensar jogo a... - o mesmo tique de encolher os ombros e nova face de figurante - jogo. No futebol tudo… - o olhar compenetrado, primeiro para o lado, depois em frente - é possível. É preciso olhar em frente, levantar a cabeça. Chegam os últimos acordes.

Descubro-me a pedir à memória que me traga dos arquivos algo que tenha sido inventado nos últimos anos num campo de futebol: a bola desenha um «z» sobre o pé direito de Ronaldinho, que, noutra jogada qualquer, decide parar um pontapé de baliza com as costas; Cristiano ou Robinho juntam partes de truques como peças de puzzle, à descoberta de nova patente. O «esquizofrénico foragido» Kerlon arma-se em foca amestrada e passa os adversários pelo sítio mais inimaginável. Mais, mais. O fim da bobine queima-se a preto e branco na tela. Não passo daí. Parece que o jogo chegou ao fim da história, tudo ou quase tudo foi inventado.

Se os jogadores deixaram a alma em campo e chegaram ocos aos microfones, nunca mais a recuperaram no regresso. Estão programados para desempenhar funções, inibidos de copiar o truque de ballet de Ardiles, o pontapé de escorpião de Higuita ou os saltos naïf em tenaz de Blanco. Ou sequer de fazer tábua rasa do passado e reescreverem a história. Só o copycat Messi tem direito a decalcar a assinatura de Maradona. Em frente ao microfone, o mesmo discurso divide-se em duas alíneas: a) em caso de vitória ou b) depois de uma derrota. O resto propaga-se como vírus pelo planeta. Os atletas lêem a cartilha, uma tabuada dos dois ou dos três, decoram-na e repetem-na. Em nome de algo abstracto que se unificou como o bem-estar de um clube. Todos, mesmo os que hoje têm um talento que lhes permite tudo, são incapazes de ter pensamento próprio.

O DVD e o Youtube devolvem-nos o que perdemos com o tempo. Como um filme que se descobre de novo. Às vezes, um enredo inteiro no preciso momento em que pestanejámos. Maradona e Cruijjf, entre outros, activos nos seus ideais, defendendo-os. Não precisam de ter razão, apenas de acreditar que a têm. O futebol aprendeu com eles. Eles acrescentaram algo ao jogo, dentro e fora de campo.

A bola vem devolvida de Jesper Olsen, e já era o penalty mais incrível da história, com Otto Versfeld, o guarda-redes, parado a meio, impotente. Aquele Ajax-Helmond Sport de Dezembro de 1982 estava a ser gravado para sempre. E a culpa não era do resultado, habitual por aquelas bandas, um 5-0 esmagador. O responsável era aquele momento, inventado em mesa de laboratório, que Cruijjf jamais repetiria. Houve quem aproveitasse a prescrição dos direitos de autor para reconstruir a cena, noutro estádio, noutro tempo, muitas vezes sem sucesso. O 14 holandês sabia, como sempre soube, que um teste de QI não se repete. E é intransmissível!

(by Luís Mateus)

terça-feira, 20 de maio de 2008

Messi e Ronaldo, será a síntese o melhor dos dois mundos?

Imagino Lionel Messi com a camisola desfraldada como uma bandeira, o 10 ao sabor dos movimentos do corpo, contra outros «10» com a mesma cor e o mesmo NOME, tatuado para sempre nas costas. Ainda pibe, não sente o peso dessa sentença chamada Maradona.

Tem as meias em baixo, brancas mas também negras, pintadas com a cor das canchas de pó, com a ferrugem de um futebol feito de sonhos e pobreza. Imagino o baixinho Messi, de braços paralelos ao corpo, talvez com um boné virado para as costas, troçando de quem deixa pelo caminho no seu futebol endiabrado e conduzindo a bola como se jogasse ao pé-coxinho. Reconhece-se nele o futebol poético de Maradona e Pelé, a pureza do jogo antes de ser corrompido pelo tempo e pela insinuação sedutora das televisões. É o último dos eleitos.

Cristiano Ronaldo está algures entre uma máquina de musculação e vinte metros à frente da baliza. Treina, treina, treina. Cada vez melhor, cada vez mais rápido. Um truque repetido dez vezes, uma recepção vezes trinta. Mais um remate, dois, dez. Meias para cima, cabelo bem penteado e firme, camisola justa ao corpo dentro dos calções. Dois passos para trás e um para o lado para o livre directo. É dali! Ele, nada português na sua sede, não resiste à busca constante pela perfeição. Pelo reconhecimento. Pela equipa. Por si. O 7 de Best, Beckham e, agora, Figo é apenas uma herança como qualquer outra, sem fantasmas.

Ambos enormes, ambos fantásticos. Tão diferentes! Messi nunca será capaz de aperfeiçoar até à exaustão um movimento, Ronaldo não conseguirá imitar a naturalidade daquelas vírgulas canhotas do argentino. Tudo no português é parte de uma coreografia, inserida numa peça de teatro. Tudo no miúdo que o Barcelona descobriu ainda juvenil no país de El Diez faz parte da vida, do simples acto de inspirar e expirar. Como se a bola fosse, literalmente, um prolongamento do próprio corpo.

Da tese e da antítese nasceu a síntese. A síntese seria o jogador perfeito. A velocidade, a força, a ambição e a capacidade de superação de Cristiano; a técnica, a magia e a simplicidade de Lionel. Se um presidente de uma empresa de clonagem esteve a ler este texto, acabou de largar o rato nesta frase, deslocando-se apressado para registar a patente. Mas, para mim, os génios têm de ser imperfeitos, Maradona tinha de ser rebelde e consumir cocaína; Garrincha não poderia ser Garrincha sem as mulheres e a bebida; Pelé fez bem em estar lesionado em 1962 e 1966; Zidane demorou tempo a mais a acertar em Materazzi...

Cristiano só é Cristiano se não for tão puro quanto Messi, Messi só será Messi se desistir do Santo Graal da perfeição. E nós ficaremos felizes da vida por podermos assistir a dois dos maiores talentos do futebol, coexistindo, brilhando intensamente, e dividindo, acredito eu, os próximos prémios de melhor do mundo. Que o futebol não os estrague!

(by Luís Mateus)

Perfil

Lisboa, Portugal
Subdirector do IOL e do Maisfutebol
Tempos livres: webdesign e criação de gatos Bosques da Noruega

Breve currículo:

2009 - (...) - IOL - Subdirector
2006 - 2008 - Maisfutebol - Editor
2005 - jornal Metro - Chefe de Redacção
2004 - 2005 - jornal Metro - Editor
2000 - 2004 - Maisfutebol - jornalista
1999-2000 - Terraportugal.com - Coordenador Editorial
1996-1999 - A Bola - jornalista

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