quarta-feira, 4 de março de 2009

O druida e a missão impossível

Imaginem-se, porque os tempos que correm são estes e não outros, e apenas por isso, em frente de um fogão a gás e uma panela anti-aderente. Um génio todo-poderoso, mau como nos livros de Marvel, mas de fato e gravata, e sapatos de verniz, pediu-vos a vós, druidas dos tempos modernos, de barbas ralas, coçados casacos de fazenda e cabelos semi-oleosos, que inventásseis o atacante perfeito.

Letal, imparável, goleador, o melhor futebolista de todos os tempos. O melhor! Sim, melhor do que quem estão a pensar, muito melhor do que qualquer um que viram de perto ou na televisão. O objectivo não interessa para nada, mas pode ser «conquistar o mundo». Fica bem. Ou então ser rico, que vai dar ao mesmo.

Enquanto esse joker de Gotham City está na sala, a interrogar-vos em silêncio, a medir o QI em piscadelas e tiques, fingem que pensam. Trazem livros amarelados das prateleiras temperadas pelo pó. Folheiam. Cortam o indicador nas folhas aguçadas, lambem o dedo. Sentem o peso do mundo sobre as costas, enquanto o sabor a ferro vos lembra, sem pudor, o quanto as aparências iludem.

Mais tarde, em silêncio, a escuridão abraça-vos, enquanto olham para o gato a dormir, sem curiosidade perante a proximidade de tal façanha. Incrível, sem curiosidade, como se o instinto lhe dissesse Deixa lá, é uma missão impossível!

Lume brando para preparar a poção. Temos de começar por algum lado. Metade do pé esquerdo de Roberto Carlos, a outra do de Messi. Meio pé direito de Nelinho, meio de Zico. O jogo de cabeça de Jardel, o instinto de Van Basten, a capacidade atlética de Hugo Sánchez. Metade da humildade de Kaká, a outra metade enchida com a arrogância de Cantona. O primeiro toque de Romário, a inteligência de Cruijff, o génio de Maradona. A presença de Pelé, a teimosia de Garrincha, a potência de Cristiano Ronaldo. A meia-distância de Arie Haan. O que mais?

Todos teríamos medo, a certa altura, de nos estarmos a esquecer de algo. A consistência de Raúl, a raça de Eusébio, os truques de Zidane. Algo que pudesse estragar a obra. Um defeito estúpido que estoire com a cadeia de ADN, destrua com a invenção, destrua todo o trabalho sem deixar rasto. Raios! Esquecemos algo?!

Puxamos os cabelos, roemos as unhas, coçamos a barba que já se tornou farta. Revemos tudo, ingrediente a ingrediente, isolamo-nos do mundo e das distracções. Esquecemo-nos da televisão, do telefone, da luz do dia. Esbugalhamos os olhos para nos vermos do outro lado do espelho.

Vocês, adeptos, que hierarquizam tudo... Para vós não há dois ou três melhores do mundo, há sempre um que é mais do que os outros. Digam-me: esquecemos alguém?

Não, deixem lá, não temos tempo. Fizemos um pacto com o diabo e temos prazos para cumprir. Daqui a pouco toca-me à campainha uma mala cheia de dinheiro. O futebol vai acabar, mas, que fazer, não me importa. Vai deixar de ter piada. Raios?! O que fui eu fazer?

Tocam! É sempre nesta altura que aparece à porta o vizinho, como num bom filme de Hollywood. A deixa. Nem sabes o que me aconteceu... Pois. Não, não sei. Tens a casa a arder? Foste assaltado? A tua mulher deixou-te? Apanhaste-a com outro. O sorriso diz logo que não. Não, pediram-me para fazer rejuvenescer a melhor equipa de sempre, o Brasil de 1970. E até consegui convencer o Mourinho a treiná-la.

Estás a gozar?!

domingo, 1 de março de 2009

O futebol português não acaba em Espinho

Atenção: este texto acarreta sérios riscos. Sócrates fala à minha esquerda, já sem a lágrima ao canto do olho, e de vez em quando o twitter dá sinais de si à direita do meu ecrã, reagindo às tiradas do primeiro-ministro. Por isso, não me responsabilizo, escrevo dividido entre a mania da perfeição e a acidez da crítica, sinto que terei dificuldades em encontrar o tom no meio desta página em branco. Mas, pronto, é aqui que entra o «lá terá de ser».

O fim-de-semana foi recheado de emoções. O Fantasporto terminou com prémio maior para o humor, os Césares foram dominados por «Séraphine». Os U2 actuaram no terraço da BBC para surpresa de milhares, que fotografaram com os telemóveis. A Força Aérea canadiana interceptou bombardeiros russos antes da visita de Obama. E o risco de grandes atentados foi denunciado pela Interpol. A coxa de Carlos Martins e o corte infeliz de Balboa quase traíram o Benfica perante o ambicioso Leixões; no Dragão, já sabendo que a águia tinha encontrado o antídoto a tempo de parar o veneno, dois muros chocaram a medo, perderam alguns tijolos, mas continuaram de pé.

Não vi, não sei, e depois de ler algumas opiniões, parece-me que o clássico acrescentou pouco, muito pouco, talvez quase nada, ao futebol português. Não vi, porque me disseram um dia que rir de mais faz mal, e não consigo parar de cada vez que olho para Rochemback, lembrando-me daquele tackle aterrador de há alguns dias, na goleada sofrida perante o Bayern. Não quero perturbar com isto o luto dos sportinguistas, a vergonha da sua cara segundo uma faixa no estádio do clássico, mas acho que todos nós devemos ser capazes de rir com os nossos erros.

Jesualdo disse depois que os portistas perderam dois pontos, Bento que a garrafa ainda estava inteira, Quique, na festa de aniversário dos da Luz, acrescentou que quer festejar um título em Maio. Reforço a minha convicção de que nada mudou. O F.C. Porto apenas depende de si, o Benfica mantém a esperança e o Sporting vai continuar à espera das falhas de outrem. Já José Sócrates parte com mais de vinte pontos de avanço para a recta final do seu campeonato.

Já se cantou o hino em Espinho. Fala agora o representante do Bloco de Esquerda, principal adversário político dos socialistas de acordo com as conclusões do congresso, onde não se discutiu o desemprego e quase não se abordou a crise. As cadeiras esvaziaram depressa, como num jogo de futebol ainda nos descontos, numa fuga clara ao trânsito. No Porto, Liedson ia chegando levezinho ao golo nas duas melhores oportunidades do jogo, coisa que os da casa não tiveram a seu favor.

Os leões precisavam de mais e tentaram pouco, o F.C. Porto podia ter resolvido quase tudo e faltou-lhe ambição. E o Benfica continua a ser demasiado frágil a ameaças externas, mesmo quando tem tudo para que não seja assim.

Enfim, é o país que temos. Não podemos é acreditar que acaba em Espinho.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Acabar o dia com dois pés esquerdos

O dia chegou há pouco ao fim. É de mim, ou vocês também acham que foram 24 horas esquisitas? Dormi pouco, por isso não erro assim tanto quando falo em 24 horas. O Ian McEwan tem um livro que começa com esse momento em que raramente existimos, apenas dormimos sobre uma almofada de nada. Até que um rasto de um avião em chamas no horizonte, avistado de uma janela durante a madrugada, muda a nossa vida.

A margem de erro deve ser de, para aí, duas horas, mais ou menos, entre as 4 e as 6, e essa é sempre uma altura esquisita, aconteça o que acontecer. Acordei, tomei banho, vesti-me rapidamente, com medo dos segundos, e falhei os mais previsíveis engarrafamentos. Na rotunda da bomba, tudo passou bizarramente fluido, sem os carros da esquerda a fingir estar à direita, sem dupla fila no espaço de uma, sem latas-velhas irritantes, de mil e poucos cc de cilindrada, incapazes de corresponder à subida íngreme, depois de terem falhado, por pouco, o embate com o lugar do pendura.

Cheguei à redacção mais cedo do que o normal (cinco ou dez minutos, chefe!) e um bigode despertou-me da letargia. Ainda não tinha ingerido uma gota de cafeína, juro. O arbusto de pêlos olhava-me nos olhos, embasbacado

- Pimbolim é matraquilhos, banco é caixa

Do meio do jornal, o ex-ex-seleccionador nacional, agora ex-treinador do Chelsea, ainda Felipão (acho...), pedia com aquela convicção inabalável: «Tudo menos empate no derby». Oi?! Ainda pensei que houvesse jogo grande na Premiership, mas não, Scolari não queria era mesmo ver o F.C. Porto fugir na tabela aqui em Portugal. Que bom para ele!

O nonsense empurrou o grande Braga europeu para a direita, uma ilha isolada pelo absurdo. O futuro do Sporting anda dependente de umas luvas made in Carachi, Paquistão; Moreira a armar-se em La Palisse, sublinhando que as dúvidas sobre a carreira deram-lhe mais força para voltar; o lateral-direito Sapunaru a ser dado como certo no lugar do lateral-direito Fucile no lado direito da defesa portista em Paços. Ao menos o jornal é de graça...

Horas depois, reparo que Sócrates (não o jogador, o outro!) elogia o aumento do número de operações aos olhos entre portugueses. Vou ao twitter twittar qualquer coisa de parvo sobre isto e a ligação à internet falha depois. É nesta parte em que faz todo o sentido a cena de «A Guerra dos Mundos» e de Tom Cruise, a olhar para cima, para o ataque de OVNIS ciclopes e extraterrestres em fúria. Faltar a net numa redacção de um site é como ser atropelado por uma ambulância. God!

Afinal, de repente, tudo parece ter sentido. Sem a indicação da estrela e dos reis magos, sem a manjedoura, o burro e a vaca (a estreia do documentário de Kusturica por cá conta como sinal?), o incenso, a mirra e as especiarias, nasce o filho de Aguero, o neto de Maradona

Y todo el pueblo cantó
Maradó, Maradó

Metade dos genes de Kun, metade dos do Pelusa. Ou um quarto, se a genética se dividir em partes iguais. Sabem o que hoje já não seria nada estranho? Apesar de Sérgio ser fantástico, e de poder vir a ser um dos melhores, se houver Deus e gostar de bola, o miúdo Benjamin deve ter mesmo nascido... com dois pés esquerdos.

Era capaz de viver na Bombonera» é um espaço de opinião de Luís Mateus, subdirector editorial do IOL, que escreve aqui todas as semanas. Siga-o no twitter.


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Junta-te a eles, mesmo que sejam ingleses

Mais uma razão para os ingleses serem chauvinistas. Bah! «O futebol volta a casa», gritaram em 66 com acento cockney, para ganharem o seu primeiro e único título planetário no jogo de que reclamam a patente. We are the champions, my friend!, o hino imortalizado pelos Queen faria então todo o sentido, apesar de só ter sido escrito 11 anos depois por Freddy Mercury. Após o bigode e a franja grisalha do fiscal-de-linha terem dito sim, em uníssono, ao remate-electronic-arts de Hurst, nem o kaiser Beckenbauer conseguiu reunir os panzers alemães para novo assalto à terra de Churchill. Ouvia-se o eco, antes da explosão dos festejos a preto-e-branco e as imagens serem coloridas por cima:

We shall defend our island whatever the cost may be.
We shall fight on beaches, we shall fight on the landing grounds,
We shall fight in the fields and in the streets.
We shall fight in the hills,
We shall never surrender.

Mais de três décadas depois, já tinham Ronaldo, Bota e Bola de Ouro, melhor do mundo, da Liga dos Campeões e arredores. Pelo menos durante um ano ninguém lhe pode negar o estatuto. Sentando a um trono, olhando todos de lado e de cima para baixo, em pose de capa de videojogo, fingindo que não vê Berbatov, Rooney, Giggs, Tévez e Scholes a divertirem-se no relvado, justificando com trick shots uma possível candidatura a um prémio futuro. Do outro lado da cidade, Robinho. Em Londres, Cech, Drogba, Essien e Lampard; e ainda Nasri, Adebayor e Fabregas. Gerrard e Fernando Torres a acenar de Liverpool. Contem connosco! Alguém que joga em Inglaterra acabou de convencer todos os da FIFA e os candidatos aumentam.

Agora, como se já não fosse suficiente, ainda levam Quaresma e Arshavin. Finalmente, Ricardo terá o espaço que os italianos regateiam ao centímetro, cada quadrado de relva servido em tupperware como se fosse uma recordação de antes da demolição desse estádio. Já Andrej vai para um país onde os dribles valem mais do que brindes com vodka e uma palmada nas costas. Onde os ídolos são super-heróis e não operários sem face, peças de engrenagem de algo maior.

Aviso já! Se levarem para lá Kaká, Ibrahimovic e Messi faço já as malas. Se importarem também a classe do sucessor de Rui Costa em San Siro, os mísseis térmicos de Zlatan ou o futebol de rua do novo Maradona, não poderemos manter muito mais tempo o estado de negação: o centro do planeta acabou de mudar! O futebol, agora sim, estaria mesmo em casa, mesmo que não tenha nada que ver com o jogo que sempre se jogou aí. Se não lhes podes ganhar, junta-te a eles. Mesmo que eles sejam o raio dos chatos dos ingleses.


terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Ronaldo e o futebol das coisas simples

Sei que acabámos de passar pelo tempo dos corações inflamados, actos magnificentes, concertos Strauss, colectânias e CD de canto lírico e gregoriano, discursos políticos de regresso à prosperidade e, infelizmente, respostas estúpidas sobre o valor do salário mínimo em programa de TV. O futebol fez um compasso de espera, à procura de um Xamã, um ilusionista poderoso, capaz de fazer desaparecer a Muralha da China debaixo de um manto de cetim vermelho.

Olhou para o lado em busca de um líder, um regente depois de Maradona, que conduzia homens, e não ratos, com flauta invisível e vingando-se de uma nova Hamelim. Ou um Napoleão de caneleiras e cabelo desgrenhado, de mão ao peito, protegendo o símbolo do futebol nas Pampas. E quem não associa o Pelusa a Guevara nessa imagem que correu mundo, de olhos fechados sentado num campo à beira da estrada, qual revolucionário de convicções inabaláveis e capaz de escrever o seu nome na história para sempre? O trono estava vazio, o futebol triste, o planeta foi a votos e escolheu Ronaldo.

Ctrl, Alt e... Del com o indicador direito, os dedos alinhados para fechar em vozeirão grave de piano, depois de o meu Magalhães ter feito blue screen. Temo que um Sir Humphrey qualquer salte da BBC, faça ar de bife espantado e diga simplesmente Yes, Prime Minister! O futebol parou para recuperar fôlego, para se lembrar de grandes momentos e esquecer erros, insultos e dedos apontados em riste, discussões à volta do valor da galinha ou galo de combate em tempos de crise. Não havia dúvidas, não podia haver. Tinha de ser Cristiano!

Esperem, alguém sabe a diferença horária para a Índia? Há de certeza uma central de informações em Bombaim ou Calcutá. Uma voz de sinal na testa sussurra-me e eu respondo a poupar palavras como se fosse um telegrama. Phone number. Susanne Arundhati Roy, please. Qualquer coisa antes de sorry e do bip, confidente por vezes, hoje bem irritante. Ninguém como ela tinha percebido a simplicidade do mundo, quem melhor para vos explicar?

Há onze anos, quase 12, O Deus das Pequenas Coisas, poucos meses depois de ter ganho o Booker Prize, abriu-se à minha frente como manual de druida. Não me fez feliz ou triste, não se tornou no livro da minha vida ou, muito menos, aquela decepção que adoramos humilhar a cada conversa. Roy desceu do seu pedestal humano e passou a olhar o mundo ao nível da cintura. Ajoelhou-se ao tamanho de uma criança, coloriu cada cena com lápis de cor e feltro, viu pessoas feitas de papel de lustro - ou não viu, já não me lembro - e todas as coisas passaram a ter um peso diferente.

No dia em que o futebol fez justiça a um português e em que já se sente Messi a pulsar como o maior candidato para daqui a um ano, os grandes vencedores foram os dribladores, os reis das fintas, todos os que acham que o caminho mais curto para a baliza é uma sucessão de oitos. Hoje, apesar de feliz, prefiro olhar, como essa indiana de nome esquisito, para as coisas simples. Para a subtileza da finalização de Torres, para a inteligência de Kaká em todos os movimentos no Milan, para a geometria perfeita dos passes de Xavi. Todos eles, à sua maneira, são o Melhor do Mundo. Não terá a FIFA mais daqueles prémios em stock? Vá lá...

Perfil

Lisboa, Portugal
Subdirector do IOL e do Maisfutebol
Tempos livres: webdesign e criação de gatos Bosques da Noruega

Breve currículo:

2009 - (...) - IOL - Subdirector
2006 - 2008 - Maisfutebol - Editor
2005 - jornal Metro - Chefe de Redacção
2004 - 2005 - jornal Metro - Editor
2000 - 2004 - Maisfutebol - jornalista
1999-2000 - Terraportugal.com - Coordenador Editorial
1996-1999 - A Bola - jornalista

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